26/08/2007

Saiotes e folhos

Haverá figurinha mais tristota?

Na praia, debaixo do toldo, no calor do mês de Agosto, eu... completamente enfarpelada com saias e bibes de folhos, cabelo penteado, borboleta engomada e...pés descalços.

Como é possível fazerem uma coisa destas a uma criança?

Sentarem-na ao sol, vestidíssima, penteada e pronta, uma vez mais, para ficar horas a olhar para o sol.

Não havia ninguém por lá com sensibilidade para partir a máquina fotográfica?

Que bom ter um fato de banho pequenino, correr na beira do mar, brincar na espuma salgada da rebentação das ondas e fazer castelos na areia, com as formas de conchas e peixes... gozar a natureza em liberdade.

Detalhe...

Não resisti à tentação de voltar a esta colecção de fotos, que acho um espaaanto.
As franjas estão bem escovadas e o risco ao lado é regra para todos.
O sol nos olhos... a câmara que não faz o clic da praxe...
Quando estava quase, esperem!
O Manel pede água. Alguém vai buscar um copo rapidamente e a mãe, como assistente, refresca a garganta do artista. Era preciso aguentar o tchan que se conseguira para uma foto tão especial.
O Tonô nem acredita na falta de profissionalismo... ou melhor, nos caprichos do vedetismo. Eu continuo a esgrimir com os raios brilhantes que teimam em me fazer correr as lágrimas...
Francamente, Manel! Sempre a fazer-nos das tuas.

21/08/2007

O vício...


Tenho sentido a falta de escrever as minhas lembranças, de me sentar e viajar calmamente através das letras que se agrupam e planam nas "brumas da minha memória".

Divirto-me e sinto-me menos só, recordando as pessoas que caminharam a meu lado, ou se cruzaram comigo nesta estrada da vida.

Tem sido dificil conseguir um pouco de tempo para mim, tempo que ainda divido com o robedesoir.blogspot.com, onde também deixo alguns gatafunhos.
Só me conformo quando visito os blogs de amigos e vejo que estes também têm avançado muito lentamente, embora por outros motivos... férias, passeios, amigos e esplanadas. Ainda bem.

A mim faz-me falta estar em sossego e escrever. É tarefa que não me cansa. Não sinto fome, sono ou cansaço. Não sinto o tempo passar. É já um vício.

Desde muito pequena que não sei andar sem papel e caneta... sinto-me despida, perdida, inquieta, mesmo que não escreva nada.

Mas se não conseguir escrever dez palavras seguidas sem me interromperem, também fico impaciente e chata. Imprópria para consumo, intragável.

Assim, mesmo com vontade de voltar às minhas fotos e aos meus comentários de chacha, é preferível adiar.

Também tenho chegado cansada do serviço, onde muitas colegas estão de férias.

É assim... já deu para me abstrair das "Chiquititas" que a esta hora enchem de vozes esganiçadas a minha sala, tão habituada ao silêncio...
Por causa delas só me chamaram duas dezenas e meia de vezes numa hora!

16/08/2007


15/08/2007

Manel

O bairro de Londres, os cabelos compridos, a barriga ausente e o futuro a adivinhar-se...

Vê só que maravilha andares na net com uma cinturinha que mede metade da largura dos ombros...
Será que com esta imagem conseguirei chamar-te a atenção e pedir-te que me tragas a malinha das fotos da mãe?
Quero copiar outras que me lembro de ter visto, mas que não tive tempo de tirar.
O meu stock está esgotado e só tu me podes ajudar.
Bom, acho que se as tuas fans desse tempo te vissem aqui, desmaiavam de emoção.
A São devia pedir uma indemnização. A mercadoria que adquiriu, não corresponde há que possui. As provas são evidentes... ganharia de certeza! Um beijo.

Os pais


A "love generation" começara aqui...
Não se herdam apenas as casas e as terras, mas também os hábitos, os gostos, as tradições, os sorrisos, os afagos e os sonhos.

Parte da "Love generation"

O pobrezinho do Kid tem mesmo vida de cachorro!!!
O maravilhoso sorriso da Bagui, que deixa envergonhadas as rosas do canteiro,só por si, cura hoje muitos doentes nos cuidados intensivos do Hospital de Stª Maria .
O Kiko, que finalmente deixou lavar o equipamento do Belenenses e que não perde de vista o pequeno animal indefeso, é hoje perito em novas técnicas da comunicação.
O Pedro, não dando descanso ao recém nascido Serra da Estrela, já a dizer mal da vida dele, defende causas em Tribunal. Quem sai aos seus...
A Rita, com um dom especial para o design, chega até nós constantemente através do pequeno ecran, dos outdors e das publicações onde brilham os seus trabalhos publicitários, além de cuidar da sua família com tanta dedicação como aqui dos seus irmão e primos.
Há mais... felizmente.
Falta a Bebé e o Bernardo.
É mesmo a "Love generation"

14/08/2007

O amuo

Em frente à capoeira das galinhas encontraram finalmente o lugar ideal para fazerem o registo fotográfico!!!
A Tereza sorri de cabeça baixa, talvez temerosa da grande responsabilidade de foto tão criativa.
Eu rio-me. Sentarem-me em máquinas esquisitas era costume muito antigo. Até já achava graça.
Quem perdeu o sorriso foi o Tonô... Pudera!
Por mais paciência que se tenha, chega o momento em que se esgota...
Ser tirado da brincadeira, lavar a cara, pentear a franja, sentar a olhar para o sol e esperar para ver o passarinho que nunca chega a aparecer, não é fácil.
A Tereza e a Mimila, presenças constantes e afectuosas na minha infância...

Veículos... e laços.

Tanto que eu gostava de ver a rua atrás...

Não consigo entender porque tinham que anular o cenário natural em cada fotografia que nos tiravam. Desta vez com um casaco comprido...

Tinham ideias persistentes. Fazer o registo para a posteridade em cima de um veículo (motorizado ou quase), era uma delas.

Quase caio da "bruta máquina", que ameaça tombar para a esquerda, mas mantenho a pose. Começava a habituar-me, a tomar-lhe o jeito.

Ainda se podia conduzir sem capacete e sem carta de condução, mas o mais difícil era fazê-lo sem chegar com os pés aos pedais.

Agora compreendo porque ainda não gosto de ser fotografada!

13/08/2007

Como o luar...

Cá está o Pedro de novo.

Esta foto é para a "Julieta" dos olhos cor do céu e dos cabelos de ouro...

Já então era "moço bonito" de morrer!

Anafadinho, como se tivesse sido picado pelas abelhas. As mãos, as bochechinhas...

Inchados, os dois, pai e filho, de um amor tão belo como o luar, tão quente como o sol, tão forte como o vento, tão profundo como o mar, tão generoso como o sonhar, tão livre como o pensamento e tão constante como o tempo.

Os amigos



Os filhos dos nossos amigos... amigos são!
O Paulo e a M.Eduarda vieram visitar os meus pais e os seus filhos - Pedro e Paula- passaram logo a fazer parte da tribo.
Tempos de férias, de vida ao ar livre, de descontracção.
Quem consegue imaginar o que nos está destinado, o que vem a caminho?
Que pena o tempo passar tão depressa e trazer tantas coisas que não esperamos, que não desejamos, que não merecemos.
Que pena...

A alegria

As latadas cheias de uvas maduras que seriam vindimadas em Setembro, no fim do Verão, faziam sombra para as correrias em bicicleta, as passeatas em que as crianças trocavam os novelos feitos de fios dourados da sua imaginação.
Foi assim connosco, foi assim com os nossos filhos... quem dera que seja assim com os nossos netos!
Não precisavamos de televisão, de Mcdonalds, de sessão da tarde no cinema do centro comercial.
Os abraços eram dados pelo pai, pelo avô, pelos mais velhos, sem olhar à quantidade, sem regatear a qualidade.
As atenções, os mimos, os doces e os bolinhos eram uma constante na mesa fazendo companhia ao leite e ao pão com manteiga.
Nas férias, os primos cresciam juntos como se fossem irmãos e os amigos como se fossem primos, os conhecidos como se fossem amigos.
Crescia-se a cada vez que se enchiam os pulmões de ar puro, a cada corrida, a cada jogo.
Não me lembro das lágrimas, da solidão, do abandono, da tristeza.
O sorriso da Bagui e do Kiko não deixam dúvidas... Era a alegria!

Ao banho!

O tanque da roupa era uma tentação!

Acabado de encher com água da nascente, era irresistível de tão transparente, mas... gelada.
Os "pirolitos" não continham cloro.
A barriga encolhia-se com o frio e os dedos ficavam encarquilhados e roxos.
Mas até isso fazia parte.
A brincadeira estava sempre por ali, à esperade ser parceira...
Mesmo assim os dois primos inseparáveis mergulhavam sob a vigilância "arrepiada" da Rita.
Desta vez não era o Pedro, mas a Bagui.

A respiração continha-se e os risos só se soltavam depois, quando recompostos do choque.
Nunca havia constipações.
Como o sol era quente, bastava subir as escadas a saltitar (por causa das areias mais grossas que se espetavam nos pés) e ao chegar à varanda, já se estava em forma outra vez.
Então vinha o lanche da avó... e o apetite também não faltava.
Quando alguns garotos de Lisboa nos davam rótulos porque éramos da "província", falávamos "achim" e não conhecíamos cinemas, transportes ou lugares como eles, dávamos-lhe razão e desejávamos ir para a cidade o mais depressa possível...
Que imagem tínhamos da vida das cidades!
Eu adorava ver Lisboa à noite, com toda a iluminação colorida dos cinemas e prédios de grandes empresas.
Parecia-me tudo muito alegre, as pessoas muito apressadas davam-me a ideia de ser todas felizes, os transportes cheios faziam-me acreditar que andavam todos a passear por gosto.
As lojas com fatiotas ousadas, os restaurantes cheios, as pastelarias com pessoas em pé, pareciam sempre numa festa.
Depressa pude ver a realidade.
A sonolência de quem viajava nos autocarros pouco tinha a ver com o cansaço dos fins de festa e os rostos dos mais apressados transmitia tanta impaciência, tanta raiva, que ao mínimo contratempo explodiam em impropérios e desespero.
A nossa infância vinha-me então à memória como um período maravilhoso, que nos dera uma estrutura tão forte, como as montanhas que observavam quietas o nosso crescimento.

09/08/2007

As colegas

As minhas colegas de escola... A Ana Maria, a São,a Elvira, a Tereza, a Mizé, a Isabel Rosa e outras.
Ontem foi o aniversário da "Menina Lurdes", como chamavamos à contínua que está na foto connosco, lugar que deveria ser ocupado pela professora. Completou mais de 80 anos...
Foi uma presença constante na vida da escola primária e embora actuasse com autoridade, ainda hoje sinto muito carinho por ela.
Lembro-me do 1º dia em que fui à escola.
A Amélia foi-me levar. Subi a Rua da Cale muito orgulhosa da minha bata branca e muito temerosa do desconhecido. A companhia da Amélia dava-me alguma confiança, mas eu ia com o coração a bater forte.
À entrada da escola havia um hall e uma escada para o 1º andar, que subi pela mão da Amélia. Lá em cima, à porta da sala, estava a menina Lurdes, que encaminhava as crianças da 1ª classe para os seus lugares, pois a professora ainda não tinha chegado.
A Amélia parou a conversar com ela e eu não lhe larguei a mão.
A menina Lurdes puxou-me pelo braço, fazendo-me separar da mão que me confortava e empurrou-me para dentro da sala, sempre a falar com a amiga.
Entrei de rompante e sentei-me. A sala estava cheia e eu fiquei envergonhada.
Foi nessa sala que fiz os 4 anos de ensino primário e estas foram as minhas companheiras de estudos e brincadeiras. Eu sou a 1ª do lado direito, de joelhos, com saia de xadrez e blusa com laço. A minha mãe tem uma foto idêntica com a sua professora e os meus filhos também...
Mudam os tempos, mas não mudam as fotos!

A infância

O Pedro diz-me para não ser preguiçosa...
Ele tem razão, não tenho tido vontade de escrever.
Veio a minha mãe passar o mês de Agosto a minha casa e sempre que me vê em frente do computador, chama-me para dizer qualquer coisa. Fala-me de pessoas do Fundão, que eu não conheço, ou se conheci, já não tenho qualquer ideia de quem sejam. Como mostro gostar de saber essas novidades, tenta contar mais. Sempre que recomeço a escrever, volta a querer a minha atenção. Preferi fechar o computador e evitar ficar impaciente com as interrupções.
Para o meu sobrinho Pedro, "moço bonito", (como diria Jorge Amado em "Gabriela"), faço hoje serão e lembro a sua infância na quinta.
Na foto, o Frederico e o Pedro.
O Frederico, o meu filho, com o equipamento do Belenenses, o nº 1 nas costas a seu pedido, que adorava e vestia todos os dias. O Pedro, de pés no chão, mesmo contra a vontade da avó (por causa do perigo de se cortar num vidro ou espetar um prego) a piscar os olhos, para manter a tradição. O cachorro Serra da Estrela, com pouco mais de um mês de idade, arreado de tantas festas.
A quinta era o paraíso para todos nós.
Os cães, as galinhas, os coelhos e os gatos. A água, a terra, as pedras, as árvores e o céu.
O espaço... a liberdade.
Já tinha sido para mim e para os meus irmãos. Era para os meus filhos e para os meus sobrinhos da mesma forma.
No ribeiro ao fundo da latada, fazíamos regatas com cascas de nozes e pedacinhos de cana.
A nogueira e a nespereira, no meio do jardim, eram os nossos castelos e os monte da areia que sobrara de uma obra, tomava um sem fim de formas, que alimentava a nossa imaginação.
Os arbustos que a minha mãe mandava podar com feitios elaborados, eram os esconderijos para os cowboys, que se alvejavam de surpresa com pistolas de pau.
Agora, tudo se repetia.
Tomavam banho no tanque da roupa, com água saída da nascente, gelada e transparente.
Faziam bigodes com as talhadas de melancia, que tingia as roupas e deixava as mãos meladas do açúcar.
Para o Frederico, qualquer pauzinho servia de pistola e os tiros, sons que fazia com a boca, chegavam a fazê-lo babar-se com tantos que disparava seguidos.
Os cães, tão respeitados por quem se aproximava da quinta, eram uns "borrancanas" nas suas mãos. Podiam fazer-lhes tudo, que eles não se afastavam, nem se rebelavam.
O Verão era uma aventura cheia de sol, ar puro e coisas boas.
Hoje, já homens, em vez de jogos e correrias, os meus Romeus fazem juras de amor, embora de forma mais descontraída, mas igualmente apaixonada, às suas Julietas de cabelos de oiro e olhos cor do céu. Adivinha-se uma nova geração...

23/07/2007

Em Maio

Cerejeiras em flor.

Quando a neve e a geada se despedem, rebentam as folhas novas, bordando a matiz as encostas da Serra.

Depois, com os primeiros raios de Sol a aquecer o ar, as cerejeiras florescem e enfeitam a grande sala que é a Cova da Beira, com magotes de pequenas pétalas rendadas, alvas e rosadas, numa festa para a vista e para o coração.

Mais algum tempo e transformadas em tapete macio, dão lugar ao vermelho vivo das cerejas, vergando com o seu peso os ramos mais frágeis, enchendo de cor o horizonte e anunciando a proximidade do Verão.

Quem somos...

Sempre que estou em cidades maiores e mais evoluídas do que aquela em que nasci, admiro e aproveito o que elas me oferecem de diferente, inspiro-me, revigoro forças, cresço.

No entanto, fica inalterável no carinho que dedico à minha, por mais que ela saia a perder na comparação.

Vou observando essa mesma característica nas pessoas que estão longe da sua terra.

Por mais pobres que fossem, por mais dificuldades que tivessem, querem sempre voltar, querem sempre poder fazer qualquer coisa por ela e as recordações que guardam dela, são sempre de um amor sem limites.

O que nos ligará para sempre ao lugar onde nascemos e crescemos?

O que nos faz ficar preso à paisagem que cercava a nossa casa, ao seu clima, às pessoas que conviveram connosco nos nossos primeiros anos, aos seus hábitos, até ao céu, ao Sol, à Lua e às estrelas que achamos sempre que têm outra cor e outro brilho?

O sabor do pão, da sopa, dos legumes e da fruta, que ouvimos tantas vezes referir, em qualquer lado, a propósito de coisa nenhuma, por pessoas que saboreiam na sua memória e sentem a diferença com o coração.

O cheiro dos campos, quando os eucaliptos volteiam com a brisa, quando as roseiras florescem e enchem o ar de doce perfume, quando se espalha no ar o odor quente do pão saído do forno que nos alimenta o corpo e o espírito, quando a chuva cai na terra seca em fim de tarde quente de Verão.

O nascer do Sol em tons dourados no firmamento e o seu esconder em laranja e vermelho de fogo.

A aragem macia e morna das manhãs de Primavera e o frio cortante e másculo que anuncia a chegada do Natal e nos recorda o conforto do abafo de lã e da lareira crepitante.

O cantarolar das rolas em árvore distante, o sussurrar da água que escorre de mansinho da fonte, o ladrar de um cão ao longe, guardando de estranhos a casa do seu dono, o cântico dolente de quem amanha o campo e deixa nele sangue e suor na hora em que as costas sentem o ardor do meio dia.

Existe em todas as terras, nos lugares mais esquecidos, no entanto o "nosso", tem um significado especial...

Será apenas um sentimento de posse, em que valorizamos o que nos pertence, ou será uma ligação visceral que nos faz sentir aonde pertencemos?

Quando saio de casa, vivo a partida com entusiasmo, mas quando regresso, o meu coração alegra-se e a minha alma aquieta-se.

A nossa terra, o nosso lugar, os nossos, permanecem dentro de nós e continuamos a amá-los, mesmo que tenham partido, que estejam distantes, que mudem, que deixem de existir.

Penso que são as nossas raízes que mantêm vivos os nossos ramos e alimentam as nossas flores e frutos, até os nossos espinhos.

Elas... somos nós.

22/07/2007

Fangio e...companhia.

O Manelito aprendeu a conduzir muito cedo. começou por ter um carrinho de pedais, depois um triciclo, depressa teve uma bicicleta e ainda não chegava aos pedais, já conduzia o carro.
Os meus pais viviam por cima da oficina e a minha mãe, certa vez, mandou o Manelito chamar o pai para almoçar. Ele foi, claro. O problema é que o pai não estava na oficina e ele, sem que alguém desse conta, (o Tó tomava conta dele, só que o Tó também gostava da bicicleta que andava a arranjar e distraía-se com frequência), pegou no carro e foi procurá-lo pelo Fundão. Teria 8 ou 9 anos.
Esticado para ver o caminho e chegar aos pedais, passou pelo polícia sinaleiro, que ficou mudo e quedo, de tão espantado.
Depois correu a avisar o meu pai, dizendo: "Oh Sr Salvado, olhe que eu até virei a cara para não ver..."
Por causa dessa mania, que os mais velhos tinham, de só poder conduzir quem tivesse carta, estávamos sempre dependentes. Para um miúdo como o meu irmão, isso era demais!
Num domingo, fomos os dois ao cinema (que Deus haja...). Tínhamos então 12 e 14 anos, no máximo. O meu pai, mandou-nos esperar à saída, pois voltava para nos buscar e levar para casa. Mas, como era habitual no Verão, todos os domingos havia visitas na quinta e o meu pai demorava-se. O Manelito, numa das suas decisões habituais, foi ao escritório, abriu a gaveta onde eram guardadas as chaves dos carros, tirou a do que estava estacionado à porta e chamou-me. Entusiasmado com as aventuras que vira na matinée, talvez, ali vamos nós direitinhos à quinta.
Em frente à adega, a meio do caminho, estava a brigada de trânsito. Mandaram-nos parar e quando viram as nossas caras, paralisaram por segundos. Então, enquanto um foi com o Manelito à adega telefonar para o meu pai, o outro, ficou junto do carro a guardar-me (imaginando que eu seria capaz de tudo... sei lá!).
Eu quase morri de medo... do meu pai.
O meu irmão foi dormir com os polícias à pensão onde estavam alojados, para não ir para o chilindró- já então funcionavam as cunhas- e na 2ª feira de manhã foi presente em Tribunal.
O meu pai teve de pagar uma multa elevadíssima, eu ouvi sermão e missa cantada e o Manelito foi o herói do dia, no colégio, por ter ido dormir com os polícias, ou seja, por ter sido apanhado a conduzir sem carta e... preso!

21/07/2007

O Zé e o Paulo.

Já falei muitas vezes no Zé da Mimila.
Aproveito a fotografia em que está com o meu pai, para lembrá-lo e ao seu irmão Paulo, que também já partiram. Cedo demais, infelizmente.
Ainda pequeno, o Zé ia a casa de umas pessoas amigas da mãe, a Mimila, e o Paulo, o irmão mais novo, quis ir com ele. A Mimila fez as recomendações da praxe... Porta-te bem, faz o que o Zé mandar e se te oferecerem lanche, aceita só quando o Zé disser. Não sejas gulotão!
Lá foram...
As senhoras da casa ofereceram um bolo com um aspecto de crescer água na boca, mas o Zé respondeu: "Não quero, obrigado".
O Paulo cumpriu com as determinações e quando lhe ofereceram o bolo, embora com voz baixa, agradeceu e não aceitou.
Pela segunda vez as senhoras ofereceram doces. O Zé estava determinado a sofrer e a fazer sofrer! Parecia de propósito. O temido "Não quero, obrigado", fez-se ouvir. E o Paulo, com dificuldade, repetiu o sacrifício.
Na terceira vez, antes que o irmão dissesse que não, olhou para ele e disse: "Oh Zé, quando é que dizes para eu aceitar?"
Estão agora a sorrir connosco, tenho a certeza. Um beijo.
Um beijo também para a Maria Eduarda, que tanto ama o Paulo e tanto nos tem amado a todos , por causa dele.

20 de Julho

Uma pequena homenagem ao meu pai, no dia do seu aniversário.
Aqui, na quinta que tanto adorava, com o Zé, a quem considerava como um filho, um irmão e um amigo.
A terra abençoada e generosa, o ar puro e a satisfação de uma vida cheia.
Levantava-se às 6 da manhã, todos os dias e até à meia-noite, nunca mais parava.
Os trabalhadores do campo chegavam às 8 horas e depois de dar as ordens, tomava então o pequeno almoço.
Costela do porco (nome dado ao entrecosto) frita com ovo estrelado, pataniscas de bacalhau, peixe em molho de escabeche, eram os pratos que preferia para acompanhar com uma caneca de café.
Era bem disposto por natureza.
Contava anedotas como ninguém. Mesmo a mais sensaborona, contada por ele, passava a ter graça. Acrescentava-lhe sempre uns pontinhos que faziam a diferença. Se a anedota não tivesse graça, as suas gargalhadas, no final, faziam rir as pedras.
Mas era muito distraído, muito esquecido.
Um dia, deu boleia a um amigo que precisava de ir a Lisboa. A pobre criatura esperou na hora e no sítio que tinham combinado para o regresso, mas o meu pai não aparecia. Depois de muitas horas, desesperado, lembrou-se de telefonar para o Fundão, donde o meu pai o atendeu...
Era procurado constantemente por quem precisava de um favor e a todos dizia que sim. As freiras duma Instituição que recolhia meninas sem família, pediram-lhe se lá mandava a camioneta, para fazerem a mudança para o hospital, onde ficariam instaladas até fazerem as obras no edifício. Claro que concordou... só se esqueceu que tinha de ir a Coimbra!
As freiras e as suas meninas trouxeram para a porta mobílias, roupas, tarecos e ficaram à espera. Ao almoço comeram pão, sentadas nos caixotes, ao lado do fogão. Telefonaram mil vezes na esperança de terem alguma novidade. Ao jantar já não tinham pão, nem força para voltar para trás, nem camioneta para fazer a mudança!
Às 10 horas da noite, o meu pai chegou de Coimbra, cansadíssimo. Quando lhe contámos dos telefonemas das religiosas, comeu a correr e foi ele mesmo fazer a mudança, trabalho que os empregados não tinham feito, dizendo que o meu pai não tinha deixado ordens para isso.
Dizia que não ia ao cinema porque não estava para pagar para dormir mal... Então levava a minha mãe à entrada e enquanto ela via o filme, ele trabalhava no escritório ou dava aulas. Já se imagina o que aconteceu... Acabado o trabalho, foi para casa. Vestiu o pijama a pensar que a minha mãe estava na cama e só então viu que ela não estava... que se esquecera dela.
Encontrou-a a meio do caminho, acompanhada por um casal amigo, furiosa por ter esperado uma boa hora.
As nossas lembranças estão tão vivas como no primeiro dia. Que saudades!
Feliz aniversário, pai!

15/07/2007

O par de... pescadores!

Mudar de ares fazia bem às crianças...
Como viviamos todo o ano perto da serra, o meu pai ia levar-nos à Nazaré, onde alugava uma casa no mês de Agosto, para apanharmos ares e banhos de mar.
Ele voltava para o Fundão e ia passar os fins de semana connosco.
Trabalhava muito para não nos faltar nada.
A ideia de nos vestirem como os nazarenos e de nos tirarem fotografias, não sei de quem era, mas penso que havia um fotógrafo que fornecia as roupas e fazia as fotos para as pessoas levarem de recordação. Outros tempos... agora toda a gente tem câmara de filmar!
Aqui parecemos mesmo os bonecos de loiça, que as lojas da beira mar vendiam aos turistas.
Bochechudos, com boquinha de passarinho, trajados a rigor, pés descalços, com todos os pormenores acautelados.
Veja-se por exemplo a mão do Manelito, dedo polegar na cinta... não é pouca coisa! E o barrete de pescador ao ombro?
Não parecemos lá muito animados, ou então... é concentração!!!
O meu irmão, antes de entrar para a escola, andou na D. Celeste, uma senhora que cuidava de crianças, onde brincava e aprendia já qualquer coisa. Eu também quis ir e ele levava-me pela mão, sem se descuidar nunca dessa sua tarefa.
Um dia, o Zé da Mimila encontrou-nos e falou-nos carinhosamente. À frase, "Olá Mimi, onde vais?" o Manelito respondeu: "Oh Zé, deixa-a lá, que ela vai muito rabugenta com o sono!"
Outra vez, cruzou-se com uns miúdos da sua idade, que andavam em zaragata. Primeiro pegou em mim, sentou-me no banco do jardim onde me mandou esperar e foi a correr meter-se na zaragata! Bons tempos!

14/07/2007

Manelito

Brincar na rua era possível. E esta era uma das principais ruas do Fundão, junto dos campos onde foi traçada a avenida. Ao fundo está a Auto-Transportes. Parece que foi há muito tempo, no entanto os carros e os prédios é que se multiplicaram depressa demais.
O carrinho de pedais já fora substituído e eu olhava a bicicleta com olhos maravilhados.
Era o meu irmão mais velho, o meu herói. Era sempre ele que tinha aquelas coisas fantásticas. (Além disso, não lhe atavam borboletas no alto da cabeça.)
Ele é que não gostava muito da proximidade da "miúda" e todas as formas eram boas para me mandar para casa. Muitas vezes a choramingar, pois tinha a mão lampeira.
Eu usufruía das "máquinas", quando ele se fartava, quando ganhava outras mais modernas. Por ser rapariga, davam-me tachinhos e roupinhas para as bonecas...
Era apaixonado por carros. Um dia deram-lhe um cavalo de balanço. Arrancou-lhe o rabo de sisal e encheu-o de água, dizendo que estava a meter-lhe gasolina. Era de papelão moldado, abriu-se logo em dois...
O meu pai foi viajar e trouxe-lhe um carro em miniatura, de metal pintado.
Quando pensaram que estava entretido com o carrinho novo, foram dar com ele a martelar o carro e a gritar:"Não sou capaz de estragar esta porcaria!". Estava habituado a ver o que tinham dentro, a tirar-lhes as rodas, enfim... a ver bem como eram.
Cedo aprendeu a conduzir carros a sério e a conhecer tudo sobre eles. Eu acabei por me refugiar nos livros que alimentavam a minha imaginação e me faziam companhia, sentindo saudades das personagens das histórias, quando estas chegavam ao fim. O Tonô, que chegaria à família por último, tinha a sua preferência na música.
Todos continuamos com os mesmos hábitos...

O meu cabriolet

Lá atrás, um carro mais moderno que o Balila... Vejo agora que este também tem a tal plataforma para subir. Pela minha idade, não era aquele que eu recordava, nem este sequer.

O carrinho era herança do meu irmão Manelito. É desta forma que passam as "manias" nas famílias!
Duvido que já soubesse andar em pé, no entanto já pegava no volante com estilo. Talvez me parecesse um carrinho de bonecas ou um ringue, objectos mais próprios para meninas... a verdade é que estou toda contente.
Ainda hoje tenho a mesma paixão por descapotáveis.
Os brinquedos do meu irmão chamavam-me mais a atenção do que as minhas bonecas.
Andar de carrinho, sempre era outra emoção!!!
Não podia afastar-me da porta da garagem, porque ainda era muito pequena. Não ter carta de condução não era problema, como contarei mais à frente...
Uma lembrança bem viva é o ódio pelos laços que me repuxavam os cabelos.
As mulheres começam desde cedo a sofrer por causa da aparência...

11/07/2007

Um mimo à nossa mãe

No Dia da Mãe, talvez, festejado então a 8 de Dezembro, quando o frio começa a sério!
.
O Tonô e o cuidado que ainda mantém... sempre um mimo para dar.
À sua maneira, sem grande espalhafato, como se tudo fosse a coisa mais natural do mundo.
A verdade é que está lá sempre, na hora certa, com uma dádiva e um sorriso.
Não foi só uma frase escrita no quadro, aos 10 anos de idade, com orientação da professora de português... foi um sentimento transcrito pelo giz, na ardósia, adivinhando uma forma de estar na vida em que o amor encontra o verdadeiro significado.
Amor pela sua terra, pelos seus, pela profissão, pelos amigos, pelas artes, pelo que é belo, pela vida...
Custe o que custar, pois nem sempre amar é fácil!

10/07/2007

Eu e os meus irmãos

Plantas do mesmo alfobre...
O mês de Agosto na praia da Nazaré, para onde se fugia do Verão.
Na Beira Baixa, onde até o clima é hostil, as plantas exigem muito cuidado para crescerem. No Inverno, é o frio, a geada, a terra que o gelo deixa dura como granito.
No Verão é a seca, que o sol, como aço de espada, deixa em ferida.
Nós, como elas, fomos cuidados, acarinhados, regados como frágeis plantas de alfobre, que se transformam em árvores, capazes de resistir aos ventos e aos temporais...

16/06/2007

O Balila

Esta foto encanta-me.
Poderão dizer que tenho péssimo gosto, mas as razões estão nos sentimentos e não na estética.
O Fiat Balila, 1º carro do meu pai, é um nome presente na minha memória mais antiga. Não me lembro dele, a não ser de um pequeno degrau onde punha os pés para subir (e nem tenho a certeza se já seria este carro).
Do meu pai, tão jovem, também não me lembro, mas gosto de o ver feliz junto do seu "espada", um dos primeiros exemplares no Fundão, penso eu.
Acho delicioso como as pessoas caminhavam calmamente no meio da estrada, a conversar, sem pressas, sem horários apertados, sem ruído de trânsito, os quintais cheios de plantas, em vez de prédios com marquises enferrujadas e cheias de roupa a secar. Sente-se o silêncio da rua.
Sorrio ao ver a levada de água que vinha da Serra da Gardunha e descia as ruas, porque me lembro das muitas histórias que contavam. Diziam, por exemplo, que as mulheres ao arrumar a casa, todas as manhãs, despejavam nela o "pitó", onde faziam as necessidades durante a noite.
Uma vez, deram ao Zé da Mimila (com 5 ou 6 anos, na altura) uma escova de dentes e ele, muito preocupado com a sua higiéne, foi pôr-se de joelhos à porta de casa, a molhar a escova na água que corria e a esfregar os dentes...
Voltando à foto... Quem a fez, estava tão vaidosa com o carro, como com o condutor...
Tempos de rescaldo duma guerra mundial, com racionamentos, poucos recursos e muita luta.
O início de uma vida de paixões... pela mulher, pelos filhos, pelos carros, pela vitória numa batalha tão dura.
Olho para esta foto e calculo como se sente Deus, sabendo exactamente o caminho que iremos percorrer e em que lugar cortaremos a meta.
É uma mão cheia de sensações.

O bailarico

Já que estou na onda das fotos engraçadas, escolho esta também.
A tia Anita, fizera uma casa em Valverde e lembro-me de ficar lá, de vez em quando, para passar um fim de semana com a minha prima Lurdes.
A casa ainda não tinha electricidade, nem água canalizada. À noite, iamos para a cama com um candeeiro a petróleo, que me encantava tanto pelo feitio, como pela chama regular, como pelas sombras que projectava nas paredes. Na cozinha havia uns potes grandes, em barro, donde se tirava a água para beber e cozinhar. Alguém os enchia, mas esse pormenor, não me despertou a atenção.
Os meus pais devem ter ido passear com o Raul, (amigo que vivia no Brasil e vinha visitar-nos de vez em quando), ou mesmo almoçar a casa da tia Anita. Só não me lembro donde vinha a música para o baile... de um rádio, talvez. E o piso... maravilhoso para dançar a valsa. Eu estava um tanto vexada, ao ser fotografada assim, contra a barriga do amigo do Brasil!!! Ainda hoje, quando estou pouco confortável ou nervosa, me rio ou sorrio "amareladamente".
Da esquerda para a direita - a Amélia e a tia Anita, a Lurdes e o Augusto, os meus pais e o Raul, que tanta curiosidade me despertava, por viver tão longe e falar de uma forma tão engraçada (as telenovelas ainda demorariam a chegar e tornar familiar aquele sotaque).

Um último olhar... fizeram o baile no caminho! Ainda não se temia o trânsito, em Valverde.

A foto

Ir tirar uma fotografia aos filhos, no quintal, trazia algumas preocupações. Primeiro saber regular a "Kodak", o que não era assim tão fácil como se pensa... Depois, arranjar uma parede onde encostar os cachopos, como se o ambiente natural onde eles brincavam, pudesse estragar a foto.
Tinha de haver luz. Muita luz! Piscávamos os olhos, fugindo do sol que nos encandeava até às lágrimas, enquanto se focava e centrava a imagem, tormento que durava largos minutos!!!
Ah! Também se dava valor aos acessórios. A minha boneca, a Pupi, a bola do Manelito e ainda faltou a pastinha do Tonô, largada certamente, na pressa de ser colocado em cima do banco, para dar alguma harmonia à cena.
Eu, de bibe bordado, com a história da carochinha, talvez. O Manelito, com a sua roupinha "au point", como era costume. O mais novinho, parece ter vestidas as calças do mais velho... sem que isso lhe tenha afectado o sorriso.
Os cabelos penteados, claro. As marrafinhas, como se chamava à franja dos rapazes, eram domadas a chicote. Escapei ao tradicional laço no cimo da cabeça, que eu abominava...(era difícil convencerem-me e ainda o sol se punha...)
Por fim, tudo a postos para o "olha o passarinho".
Vê-se bem o meu sapato que não apertei, as biqueiras das botas do Tonô todas esfoladas de andar de joelhos ou a jogar à bola, mais duas pessoas que tinham de ver tudo bem de perto e as sombras inevitáveis. Era como se esses pormenores, de tão somenos, não ficassem no retrato!
Eu baixei a cara, pura e simplesmente. Os meus irmãos mostraram ser homens e ainda aguentaram de cabeça erguida, embora um tanto de esguelha, a espera do clic tão almejado...
E pronto, só faltava ir ao fotógrafo para revelar!

06/05/2007

Amélia

A Amélia e eu, com as 7 saias das nazarenas, numas férias na praia da Nazaré. Já nessa altura ela me ensinava a voar, usando a imaginação... O meu sorriso mostra como isso me fazia feliz!
Estou no centro, sempre tímida ao ser fotografada... não mostrava ser diabrete! Mas era.

Escola Primária

Entrei na escola com 7 anos feitos em Junho.
A escola reabria religiosamente no dia 07 de Outubro, depois das férias grandes. Funcionava das 9 h às 12 h e das 13h às 15h. Tínhamos um intervalo a meio da manhã, que servia de escape à energia que acumulávamos durante as aulas.
Na sala havia um retrato emoldurado de cada lado do quadro negro. Um era de Américo Tomás, o presidente da república e outro de Salazar, o presidente do conselho de ministros.
Era obrigatório o uso de bata branca.
Quem não soubesse alguma parte da lição, que se levava para estudar em casa, apanhava reguadas nas mãos, com toda a força que a professora pudesse. Era doloroso, humilhante e ineficaz, mas prática corrente e até aplaudida. A escola não tinha aquecimento e no Inverno passávamos muito frio. No caminho para a escola, a chuva molhava-nos o calçado e a roupa, com que ficávamos durante todas as horas de aulas.
Eu vivia no Fundão, não muito distante da escola e podia mudar de roupa, ou de calçado, quando ia almoçar. Mas a maior parte das crianças minhas companheiras, vivia nas quintas, donde saía a pé, ainda de noite, regressando a casa só no fim das aulas. Traziam uma merenda que comiam no pátio, ao ar livre, porque a escola fechava à hora do almoço. Tiritávamos de frio o tempo todo.
As matérias que aprendíamos eram compactas, cansativas e não deixavam grande margem para a criatividade.
Às quartas-feiras de tarde, havia bordados (lavores femininos) ou ginástica no pátio de terra batida. A ginástica limitava-se a alguns exercícios, que se adaptavam às poucas condições existentes. Os bordados eram tão "exigentes", que eu andei da 1ª à 4ª classe com o mesmo "naperon", de 20cm x 20cm, sem concluir um pequeno desenho em ponto pé de flor.
As casas de banho, fora da escola, estavam sempre sujas e com o chão encharcado.
Nunca fizemos uma visita de estudo, nunca vimos um filme, nunca nos mostraram um livro de histórias, nunca fizemos teatro, dança, ou música.
Lá aprendi as serras, os rios, as províncias, as capitais, as culturas do solo e do subsolo, os reis, as guerras, as conquistas aquém e além mar, os presidentes, os tratados, as contas, a tabuada, os verbos e a gramática de fio a pavio.
Ganhei o 1º prémio na admissão ao liceu (4ª classe) com uma redacção sobre os ciganos. Escrever era já então para mim a tarefa mais fácil e que me dava mais prazer.
O que eu mais gostava era do recreio. Era muitas vezes, quase sempre, lider dos jogos que eu própria escolhia. Gostava de correr e de rir. Usava o cabelo curto e molhava a franja com suor de tanta brincadeira.
Levava as minhas colegas para lanchar na minha casa e continuarmos a brincar durante mais um bocado... o que deixava a Amélia desesperada por ter tudo a seu cargo.
A casa, as crianças e as refeições eram preocupação da Amélia, a nossa criada.
Criada era o nome que se dava então a uma empregada interna. Não tinha direito a folgas, fins de semana, férias, subsídios, ou sequer horas de entrar e de sair do serviço. Lá em casa, era a primeira a levantar-se e a última a deitar-se. Era ela que me ia levar e buscar à escola.
A Amélia não sabia ler, era analfabeta. Nunca a mandaram aprender a ler e a escrever... nunca teve tempo, nem possibilidades económicas para poder frequentar a escola.
Não nos podia ajudar nas letras ou nos números, mas ensinou-nos quase tudo o resto. O primeiro mealheiro, a primeira oração, a primeira história... foram-nos ensinados pela Amélia. Hoje pergunto como é que ela fazia para ter tempo e força para tanto!
Era tempo de fazer os alicerces...
A professora, a contínua, as minhas companheiras e até mesmo o edifício, estão presentes na minha memória como se nada se tivesse passado depois deles.

22/04/2007

Outros tempos...

O caminho-de-ferro estava pronto e a estação do Fundão engalanada para recber o Rei D. Carlos.
Todas as famílias convidadas para a inauguração, andavam numa lufa lufa para se apresentarem condignamente na presença do Rei.
Empenhados em que os seus clientes estivessem à altura do acontecimento, os costureiros de chapéus deram asas à imaginação, as modistas afundavam-se em rendas e folhos e os alfaiates aprimoravam-se nas casacas de corte inglês.
Os sapatos e as botinas, novinhas em folha, tinham que condizer com a fatiota.
Não ficaram esquecidos os botões de punho de madrepérola, os lenços de seda para as gravatas dos cavalheiros, os cordões e medalhas de ouro para as senhoras, os leques para realçar a fragilidade feminina, os laços e saiotes engomados para as crianças.
A banda ensaiou até à exaustão e preocupou-se o maestro de tal forma, que a insónia passou a ser a sua companheira nos serões.
Prepararam-se os discursos em que se elogiava o progresso acabado de chegar à Vila do Fundão, pela mão de Sua Majestade El Rei D. Carlos. Treinava-se a respectiva vénia.
O dia marcado chegou num foguete!
As senhoras, com saias embaloadas, caminhavam pelo braço dos maridos, todos empertigados nos colarinhos duros de goma, levando as crianças pela mão a quem, com olhos reprovadores, chamavam a atenção quando davam pontapés nas pedras do caminho. Além de se empoeirarem, estragavam os sapatos de verniz.
Havia flores, bandeiras de papel, música, sorrisos, cumprimentos e muitos baixar cerimonioso de cabeça, mesmo para aqueles com quem se convivia todos os dias. A ocasião pedia protocolo!
O comboio parava em cada estação e Sua Majestade, El Rei D. Carlos, procedia à inauguração respectiva entre aplausos, discursos e fanfarra.
Mas a cerimónia não agradou à maioria dos presentes... e não eram republicanos.
Sua Majestade apressara o acto e nem dera tempo à leitura de todos os discursos, aos cumprimentos e vénias tão ensaiados, sequer à marcha completa que a banda já conseguia tocar com pouquíssimas fífias. Quem foi convidado para viajar nas carruagens que seguiam a do Rei, teve de entrar sem compostura, as damas içadas pelos braços de cavalheiros desconhecidos, levantando demasiado as saias e saiotes para poderem subir aqueles degraus altos e estreitos, num despachar que tirava todo o requinte à cerimónia.
Uns queixavam-se de mal terem visto o rei, outros, de não terem visto nada.
Apesar de se sentirem abafar dentro dos fatos e de ser um tormento o colarinho a roçar na maçã-de-Adão, o pior era não terem agora, que o comboio já partia com destino à próxima estação, onde ir para se mostrarem e continuarem a imaginar-se na Corte.
Festa, festa... foi a sua preparação.

Os meus bisavós maternos



O meu avô, José Delgado Leal, 2,02 metros de altura, republicano em tempo de monarquia.

05/04/2007

Fim do Inverno

A vinha, o olival e a cerejeira em flor.

Cova da Beira

Foi este o cenário que eu tive na minha infância e na minha adolescência.
Muitas árvores, muita água, muita fruta, muitas flores, muitos afectos... tempos de fartura.
A família estava toda lá, ainda. A casa enorme, sempre cheia.
A quinta era cultivada e os trabalhadores chegavam logo pela manhã em rancho barulhento de risadas do mulherio e conversas "atrevidas" dos homens. Durante o dia, ouvia-se de vez em quando uma voz feminina cantar ao longe. Era um cantar triste, que se repetia arrastado, a acompanhar o trabalho que as mãos teciam.
A Serra da Estrela do lado direito, a Serra da Gardunha do lado esquerdo.
Uma, mais magestosa, conservava durante muito tempo no cume, a neve com que era brindada na Páscoa, dando-lhe um encanto especial.
A outra, mais próxima, mais familiar, mais verde.
As nuvens formavam-se sempre primeiro na Estrela, deixando o sol acariciar a Gardunha e fazer florescer as cerejeiras.
Eram rivais, sem necessidade. Uma com a beleza da neve, no Inverno. A outra com as flores brancas e rosadas, na Primavera.
Muitas vezes penso se será a elas ou à minha juventude, que me apresso a procurar sempre que chego à Alpedrinha e as abraço com o olhar...

Da Gardunha, olhando a Cova da Beira.


02/04/2007

As Cores da Gardunha

A Serra da Gardunha é feita de verdes. Granitos e verdes.
É mais verde na Primavera quando estende colchas rosadas de cerejeiras em flor nas janelas de pedra onde passa a Procissão dos Passos. É menos verde no Outono, quando toma os tons dourados, ocres e amarelos dos castanheiros.
No Inverno é cinza, umas vezes clara, fria e suave como lençóis de algodão, outras, carregada de tempestade, negra como xaile de viúva. No Inverno mais rigoroso, brilha nos cristais prateados das geadas e lá em cima, onde os picos tocam o céu, a neve branca e misteriosa dá-lhe a forma de bolo de noiva.
Com romarias e rosas perfumadas, no Verão tem a cor das cerejas doces e sumarentas, em molhos pendurados dos ramos , ou aos pares fazendo de brincos nas orelhas das cachopas.
Então... é rubra de carros de bombeiros, de sirenes aflitas e de chamas, que a deixam em carne viva. O pôr do sol, as chamas e as cerejas - o sangue da Gardunha.

30/03/2007

Viver para sempre

Tantas coisas novas que eu tenho aprendido nos últimos tempos e tanto para aprender ainda.
São livros para ler, filmes para ver, lugares para visitar, gente para conhecer... Entristece-me calcular o muito que será inventado e eu irei perder.
Adoraria ter tido as oportunidades que os jovens agora têm.
Andava nos primeiros anos da escola primária quando chegou a televisão ao Fundão. A Electro-Gardunha pôs na montra um aparelho que estava ligado nas horas de emissão. Juntava-se muita gente no Largo da Igreja para olhar aquela novidade... As crianças, como eu, esperavam com ansiedade que em vez daquela foto com uma paisagem e a legenda de Interlúdio, aparecesse o Franjinhas, que falava e brincava de forma bem mais divertida do que os desenhos dos livros que conhecíamos.
Ninguém imaginaria ser possível assistir pela televisão a factos que nesse mesmo momento aconteciam em África ou na América.
O meu pai comprou-nos uma TV, mas na escola não acreditaram em mim e a garotada vinha em rancho ao Largo José Barata para verem a antena no telhado da minha casa.
O nosso telefone preto tinha o n.º 250. Era fixo, claro, pois telemóveis com agenda, mensagens, video conferência, câmara de fotogafar e filmar, ligação à internet, etc. com o tamanho de uma bolacha de baunilha, só em filmes de ficção...
Ouvir música em gira-discos a pilhas, sem colunas, era inspirador, mesmo que os singles já tivessem sofrido alguns reveses e apresentassem riscos profundos.
Ir a Lisboa, era uma festa com direito a merenda, que começavamos a comer logo à saída de Alpedrinha. A estrada de Vila Velha de Rodão era interminável e o meu pai, para nos ver sorrir, dizia sempre que o arquitecto a projectara numa folha de couve e os trabalhadores só a construiram meses depois.
O meu diário era escrito com caneta de tinta premanente, em caderno pautado e com cuidado para não ter de fazer rasuras. As canetas, que enchia no tinteiro e me sujavam o dedo médio, ajudaram-me a aperfeiçoar a letra que raramente já desenho.
O computador... um milagre na forma mais moderna. Escrever um blog que todo o mundo pode ler, é assustador e maravilhoso ao mesmo tempo. E mais, que aí virá...
Falta-me o tempo para aprender e experimentar tudo o que vejo. Tenho pressa...
Dou por mim a desejar viver para sempre.

27/03/2007

27.03



DIA MUNDIAL DO TEATRO. Boa data para o começo!

26/02/2007

chico buarque


25/02/2007

sobrevivência e felicidade


Agora que os nossos filhos são crescidos, podemos contar-lhes…

Na época em que nascemos e crescemos, os carros não tinham cinto de segurança, nem apoio de cabeça, nem airbags. No banco de trás era a festa – era "divertido" e ninguém pensava que fosse "perigoso".

As barras das camas e os brinquedos eram multicolores, ou pelo menos envernizadas, e com tintas contendo chumbo ou outros produtos tóxicos.

Não havia protecção infantil em tomadas eléctricas, portas das viaturas, medicamentos ou produtos químicos de limpeza.

Podia-se andar de bicicleta sem capacete.

Fazíamos carros com caixas de sabão – e aqueles que tinham a sorte de ter uma rua asfaltada inclinada junto de casa podiam tentar bater o record de velocidade… e aperceberem-se, tarde demais, que os travões tinham sido esquecidos... e sorrir com o riso dos que olhavam as escoriações resultantes do acidente!

Bebia-se água de um chafariz, da mangueira de rega, ou não importava de que qualquer outra fonte – sem que fosse água mineral saida de uma garrafa estéril.

Tinhamos o direito a brincar na rua, com uma única condição: estar de volta antes de anoitecer.

E não havia GSM… e ninguém sabia onde estavamos nem o que faziamos...!

A escola fechava ao meio-dia para almoço – podiamos ir comer a casa.


Arranjavámos feridas e fracturas – às vezes partíamos os dentes – mas ninguém era levado a tribunal por isso. Mesmo quando havia grande desordem, ninguém era culpado – excepto nós mesmos.

Podíamos comer toneladas de doces, devorar torradas com montanhas de manteiga e beber bebidas com açucar de verdade – mas ninguém sofria de excesso de peso.
Podiamos partilhar uma limonada pela mesma garrafa, sem receio de contágio.

Não tinhamos Playstation, Nintendo 64, X-Box ou jogos video. Nem computador, nem chat na internet –
tinhamos... amigos.

Podiamos sair, a pé ou de bicicleta, para ir a casa de um colega (mesmo se ele morasse a vários quilómetros), bater à porta ou simplemente entrar em casa dele e sair para brincarmos juntos.
Na rua, sim, na rua! Sem vigilancia!

Jogávamos futebol com uma só baliza – e se um de nós não era seleccionado uma vez, não havia traumas psíquicos (nem sabíamos o que isso era).

Por vezes um aluno, talvez um pouco menos atento que os outros, tinha que repetir. Ninguém era enviado ao psicólogo ou ao pedopsiquiatra; ninguém era disléxico, hiperactivo ou portador de "problemas de concentração"; o ano era repetido… e pronto! – cada um tinha as mesmas oportunidades que os outros.

.
Não criavam para nós programas, nem subsídios, nem apoios, nem cartões privilegiados. E nós orgulhávamo-nos de virarmos o mundo do avesso com a nossa própria criatividade – e com as liberdades que NÓS PRÓPRIOS conquistávamos.

E tínhamos essas liberdades. E deveres. E sucesso.

E aprendíamos a viver e a conviver com tudo isso.

Os nossos filhos lerão hoje isto – alguns deles até ao fim – com uma interrogação: Como conseguiram os pais sobreviver?

E nós contamo-lo com outra: Como hão-de os nossos filhos ser felizes?

24/02/2007

hetero-abertura


O tempo. Porquê o tempo, que Dali "retratou" num óleo imortal?.
Porque o tempo parece ser, para já, a palavra-chave da abertura deste diário.
Porque é o tempo vivido por cada pessoa individual e singular aquilo que fica duma existência humana, como testemunho e como legado.
Porque é o tempo que dá experiência, maturidade, senso - e, porque não, sabedoria - para se questionar, pensar e concluir tudo aquilo que, embora talvez visto por outros, cada par de olhos, identificado e personalizado, tem para dar a ver aos outros - aos outros no espaço, que são o outrem, e aos outros no tempo, que são o vindouro. O que se viu e não deve deixar de dar-se a ver.
Porque é o tempo que constitui aquele tesouro diferenciador dos indivíduos de cada espécie - o tempo que uns gastam e outros aproveitam, o tempo que a uns desgasta e a outros enriquece, o tempo que para uns é ócio e para outros dádiva.
Porque é o tempo aquilo por que se luta muitas vezes - pelo tempo que os outros perderam, pelo que contam, pelo tempo que não podem voltar a perder, pelo tempo que têm de aprender a não perder de novo, pelo tempo que esperam ou receiam, pelo que no tempo deles preocupa o nosso tempo, quantas vezes em tempo inteiro.
Porque é o tempo, afinal, o que mais merecemos usufruir valorizando, valorizar usufruindo.
E é isto: esta abertura, por ser uma simples hetero-abertura, é um convite e um pedido - o de nos dispensares as sobras do teu tempo, dando-nos a essência do tempo que foi e é o teu.
Boas prosas!