20/09/2008

Os teus olhos castanhos...

Um conhecido meu, no Fundão, tinha um problema de dicção em que não conseguia pronunciar os cês.
No dia a dia, já se notava bastante a sua dificuldade, mas todos disfarçavam e pareciam não reparar na sua maneira de cortar as palavras.
O pior era a sua insistência em cantar nas festarolas e reuniões de amigos.
Mal se falava em serão entre amigos, lá estava ele a sugerir uma cantoria.
Todos sabiam já o que iria acontecer, mas não tinham coragem de lhe dizer, nem sequer de o contrariar.
Então, quando se punha de pé e pedia para cantar, era inevitável a música escolhida.
Todos sugeriam outra, fingindo que era só para variar, mas ele insistia. Era aquela que ele adorava e ninguém o demovia.
Certa vez houve uma noite de fados no jardim do Fundão e encheu-se de gente o jardim, para assistir. Correu bem e no final, os amadores foram convidados a participar. Aconteceu o que todos temiam... Ele não se fez rogado, subiu para o palco e pegou no microfone.
Começou :
-Eu _ueria _antar a minha _anção preferida, _ue já todos _onhecem... Os teus olhos _astanhos.
E lá se voltou a ouvir:
-Os teus olhos _astanhos, de en_antos tamanhos são pe_ados meus...

11/09/2008

Doze filhos de uma vez só...


Vi esta fotografia durante anos na malinha, onde a minha mãe guardava as suas recordações. Havia fotografias de pessoas amigas, de pic-nics, dos nossos aniversários, de viagens que os meus pais tinham feito, de primeiras comunhões e principalmente de casamentos.
Não sei quem deu esta fotografia ao meu pai, mas andava misturada na grande colecção que se podia encontrar na malinha.
De vez em quando ia ver todas aquelas caras que já conhecia, mas que continuavam sempre a ter alguma coisa de novo.
Esta era uma das que me hipnotizava, ficando a olhá-la durante longos períodos de tempo, não sabendo porquê, concretamente.
Ora me fixava nos leitões, contando-os vezes sem conta, ora mirava o seu tratador de mangas arregaçadas e chapéu preto.
Pensava que ele estava tão vaidoso, como a porca. Parecia-me sempre que ela se sentia a mãe e ele... o pai! Claro que o orgulho que o fez ficar na foto para a posteridade, me dava a ideia de que ele gostava tanto dos leitõesinhos, como se fossem seus "filhos".
Era apenas o facto do cuidado paternal que me vinha à cabeça, claro!
Os filhotes da porca pareciam-me iguais à mãe, não só na cor, mas nas orelhas espetadas que se vêem nos que estão de frente.
Era uma família completa!
Aquela corda preta que está a meio da parede, atrás do tratador, também me despertava curiosidade. Eu conhecia o hábito de plantar videiras à beira das casas, junto às portas, para puxar e fazer latada. No Verão, quando estavam plenas de rama e de uvas, davam sombra à soleira da porta, onde se sentavam à tarde, em cadeirinhas baixinhas, a conversar com os vizinhos ou a fazer renda. Como eram tirados os ramos que iam nascendo por baixo, a planta ficava esguia e sem folhas junto da parede, como o cabo de um guarda sol.
Quando a encontrei no fim de tantos anos, fiquei admirada por voltar a fazer a contagem dos leitões-penso que são 12- e a parar nos mesmos pormenores.
É mesmo um encanto. 12 filhos de uma vez!!!

06/09/2008

Alcongosta, Fundão

"No segundo fim-de-semana de Setembro, como sempre, realiza-se a festa de Alcongosta. Por isso tencionamos nos próximos dias dar especial atenção a esta temática. Uma festa que tem a curiosa particularidade de todos os anos ser organizada por quem completa 40 anos, uma forma pouco vulgar de definir quem são os festeiros. Apesar de as pessoas não terem o mesmo número de filhos que era habitual antigamente, a verdade é que a festa, com muitos ou poucos recém-quarentões, nunca deixou de se fazer. Este ano não vai ser excepção. Os cartazes já estão por aí com o programa, que inclui a inevitável procissão das velas, no sábado à noite, e a de domingo à tarde. Claro que a componente pagã não foi esquecida. Fica o encontro marcado para o ringue, então. Só que este ano quem faz a festa no próximo ano não sobe na segunda-feira ao palco, como é habitual, porque se decidiu encurtar até domingo. Certamente que o momento irá acontecer no último dia da festa. A fotografia em cima foi enviada pela Carla Rolão, sem identificar quem aparece. A ela, que gentilmente tem cedido material para o blogue, obrigado. Nos próximos dias vamos postar mais. Nomeadamente da Telma Rolão e da Ana Cláudia Ribeiro, que também já enviaram registos fotográficos e a que se presta aqui o devido agradecimento. Acontece que as imagens que chegaram são sobretudo da procissão, com o interesse de serem quase todas bem antigas. Era bom se o pessoal pudesse mandar mais coisas. Mais uma nota. A foto foi tirada na rampa da fonte, há uns 40 anos. Reparem que nenhuma das casas que se vê está de pé. Actualmente são as da Gracinda Rambóia, do Alberto Mendes e Víctor Bonifácio. Já agora, alguém sabe dizer quem são os festeiros este ano?"
In: pedacosdealcongosta.blogspot.com

Alpedrinha, Fundão

"novelos doces...

De 19 a 21 de Setembro irá decorrer o Chocalhos 2008, Festival dos Caminhos da Transumância, que trará ao Fundão as sonoridades do Mediterrâneo.
Haverá workshops, exposições e conversas em torno do universo pastoril e dos segredos feitos da lã.
Concertos, tasquinhas, artesanato, produtos tradicionais e muita animação de rua, onde com certeza o licor e doce de cereja não vão faltar. Um festival a não perder!"
in: coisasdecereja.blogspot.com

Amor para sempre

13/07/2008

O fim anunciado

Nasci no Fundão, onde estudei até terminar o liceu.
Sou filha, neta e bisneta de fundanenses.
No entanto, quando me interrogo sobre hábitos, costumes, palavras e lugares da minha terra, sinto que nada sei.
Andamos na escola, no colégio e saimos da nossa terra, para estudar e exercer uma profissão, sem sabermos interpretar as nossas raízes.
Tenho pena, porque à medida que procuro o que ficou para trás, vejo como tantas coisas se perdem, desaparendo para sempre, não só da vista, mas também da memória das pessoas.
E são essas pequenas histórias que originaram o que somos e fizeram a nossa História.
Cada cidade vai evoluindo, deitando por terra o que é velho e a identifica, para dar lugar a um novo descaracterizado e igual em todas as outras.
É como se lhes vestissemos uniforme.
Poderíamos evoluir sem perder o que existe, restaurando e preservando as características da nossa terra, para as darmos a conhecer aos nossos netos.
As casas de pedra dão lugar aos prédios de andares, as lareiras, aos aquecimentos centrais, os fornos a lenha comunitários, aos bolos de fábrica congelados e preparados para fazer na hora.
Tudo se moderniza e a nossa identidade desaparece.
Já não há festas populares com arraial, nem artesanato local. Os doces, os licores e as compotas são feitas em indústria própria e com as precauções da longa duração. Os pratos tradicionais, envergonham-se da sua simplicidade e enfeitam-se com bijuteria que lhes dá um ar estranho.
O cabrito no forno deixou para trás a assadeira de barro e aparece na mesa em pirex brilhante e transparente. O feijão verde frito com polme de ovo, está ausente das merendas e presente o frango assado no momento. O esparregado compra-se congelado, pois migar a rama de nabo, cozê-la, escorrê-la e fazer com ela o esparregado frito no azeite com um dente de alho, a que se junta o sal, a farinha e o vinagre, dá trabalho e tira tempo, que se pode utilizar em tarefa menos enfadonha.
A tradição e o sabor... esses deixam de ser importantes. Importante é ver a telenovela no horário anunciado, ou ir ao café na hora certa.
Os pimentos já estão assados e em frascos adequados. A massa tenra para os pastéis, já está confeccionada e em caixas de papelão, nas arcas dos supermercados. Os ovos verdes, quase desapareceram das entradas e já ninguém conhece o botelho frito. O arroz doce já não tem corações desenhados com canela.
Os meus filhos adoram ovos verdes, mas não os sabem fazer. (Porque é que se chamam verdes, perguntaram-me. Porque levam muita salsa picada, respondi.)
E assim ficam para trás as nossas coisas e tomam o lugar delas hamburguer, pizza e donuts.
Tudo tem um fim. Até nós teremos.

29/06/2008

Surpresa!

Naquele tempo...
Eu vivia na minha terra e tinha muitos sonhos.
Dividia-os com algumas amigas, que eu estimava muito e que, tal como eu, seguiram os seus destinos com o coração cheio de esperança.
Tive hoje, depois de muito tempo, notícias de uma amiga desses tempos de espera e de decisões.
Espera, por ver concretizados os sonhos e decisões que ajudariam a vê-los realizados.
Sempre que ouço o nome da cidade em que esta amiga vive, lembro-me dela.
Sempre que penso naqueles dias, em que terminada uma etapa nos preparavamos para outra, a recordo e às nossas conversas, risadas e desabafos mais íntimos.
Nessa altura, as incertezas eram suplantadas pelas horas de felicidade, que traziam força para as afastar da nossa mente e abraçarmos os novos tempos com todo o entusiasmo.
Penso que as duas conseguimos encontrar o nosso caminho, embora de formas diferentes.
Ela é amada por 3 homens (fora outros, que a amam muito também e que recebem na mesma moeda), tem a sua carreira a avançar de vento em popa e está feliz.
"Quem acerta no casar, nada mais tem que acertar", diz o ditado popular e a minha amiga acertou.
Da decisão que tomou naquele dia, a sua vida tem visto desabrochar muitas flores e delas estão a amadurecer dois frutos que alimentam a sua alma e lhe adoçam a boca todos os dias.
Acertou também na profissão que escolheu e em que se realiza. Já lá vai o tempo em que as mulheres se realizavam apenas como esposas e mães...
Tenho muitas saudades da nossa cumplicidade.
Mas estou feliz por sabê-la bem.
Que os nossos caminhos se cruzem em breve é o meu desejo maior. E como estou habituada a lutar pelo que quero, vou estudar o mapa das nossas rotas, para desviar no primeiro atalho e ir ao seu encontro.

25/06/2008

Ginjas

Desapareceram as ginjas.
Eram consideradas uma fruta menor, somenos, fruta que não merecia o trabalho da apanha.
Mas o paladar dos ricos, habituados a provar tantas variedades de coisas boas, começou a reparar nelas.
A ginjinha que se bebia na taberna, como substituto dos licores com nomes esquisitos, começou a dar nas vistas.
E nos restaurantes lá da capital, começaram a achar graça ao doce de ginja para contrastar com outros sabores menos agrestes, menos selvagens.
Começaram a perguntar pelas irmãs pobres das cerejas, nas praças e nos mercados.
E foi assim... Hoje são mais procuradas, mais encomendadas e muuuito mais bem pagas.
Na Serra da Gardunha plantam-se ginjeiras à pressa. Adubam-se, protegem-se e colocam-se nelas as esperanças de uma existência menos dura, de invernos menos frios de lenha na lareira e de carne na salgadeira.

Cerejas

Cerejas, cerejas, cerejas.
São os tempos de alegria nas encostas da Serra da Gardunha.
A Primavera trouxera a floração que mais parecia ter coberto a Serra de neve.
Com os dias mais quentinhos, a flor da cerejeira deixou as ramadas e atapetou o chão, como se fosse o véu da noiva deixado para trás na vinda da Igreja.
Os vários tons de verdes foram aparecendo com a folhagem, que trouxe de novo a vida à Gardunha.
À saída de Castelo Branco e à medida que se aproxima Alpedrinha, cada encosta, cada vale, cada cume sorri com o rejuvenescimento que a folhagem das cerejeiras consegue fazer à Natureza em cada Primavera.
Agora é a festa!
As cerejeiras vergam as pernadas carregadas com as cerejas que amadurecem e brilham, no seu colorido berrante, ao sol.
É tempo de risos, de fartura, de alegria, de doce sumarento na boca.
É tempo de renovar esperanças daqueles que tratam a terra e tão pouco recebem pelos produtos maravilhosos que conseguem gerar nela, trabalhando dias que começam nas madrugadas e avançam pelas noites.
As cerejas são o sangue da Gardunha, sangue doce, sangue vivo, mas sangue fugaz.
Com o começo do Verão elas partem para as Lisboas, para os Algarves e é tempo da Gardunha se preocupar com os incêndios, que vão encher as encostas de chamas laranja e névoas de cinza.

08/06/2008

Já a formiga...

A Mimila tentava dar de comer à criança de quem se ocupava, a minha mãe, de 3 ou 4 anos nessa altura.
Convencia-a de como era bom, de que já não estava quente, que era só mais uma colherzinha para engordar o dedo mindinho do pé, onde ainda não tinha chegado alimento... mas a criança não cedia.
Por fim a Mimila, lembrou-se de fazer uma negociação.
- Vá lá, Celestinha, se comer tudo vai com a Mimila ao mês de Maria.
Ao que ela respondeu: - Ao mês de Maía, não... ao chiema.

27/05/2008

Fundão em desânimo

Atravessei a rua e fui ao carro deixar o saco de viagem.
Ia tomar café e embora só regressasse à minha casa no fim da tarde, aproveitava a ida à rua para levar já algumas coisas.
Um senhor, com idade aproximada da minha, parou, olhou-me e disse: - "Já viu o deserto em que está o Fundão? Não se vê movimento na rua."
Perante a minha admiração, explicou: - "Não me conhece, mas eu conheço-a bem. É a filha do Sr Salvado. Conheço-a desde muito pequena. Eu sou da família do... Olhe para esta terra, sem viva alma nas ruas. Que tristeza!"
Hoje já não sei o nome do tal senhor, mas lembro-me do seu olhar, auscultando as ruas desertas, numa tarde de domingo.
Fui tomar café ao centro comercial. Não havia em cada loja ninguém além do seu proprietário.
Não havia clientes, não havia visitantes.
Na pastelaria só a empregada, eu e meia dúzia de bolos. "Não há necessidade de colocar mais na vitrine, pois não se vendem" - explicou-me ela.
O Fundão está triste e desanimado! As pessoas do Fundão dão vida ao centro comercial da Covilhã, às esplanadas da Ciudad Rodrigo e aos supermercados situados nos arredores.

18/05/2008

Maçãs de todas as cores

A Mariazinha, minha prima direitíssima, já que o pai era irmão do meu pai e a mãe, irmã da minha mãe, tinha fama de ser uma criança muito bonita e muito inteligente.
O meu pai falava dela sempre com o enlevo de um primeiro amor (era a primeira sobrinha).
Um dia, a família foi passear e a Mariazinha ia feliz.
A mudança de ares abriu o apetite da criança, que começou a sentir um ratito no estômago.
Quando atravessaram uma cidade, tiveram de parar numa rua mais movimentada e mesmo ao lado da janela por onde a Mariazinha espreitava a paisagem, estava uma mercearia com frutas expostas à porta. As maçãs verdes, amarelas, vermelhas e rosadas que brilhavam ao sol, sorriram e piscaram o olho à minha prima. Foi então que ela, com a cabeça fora da janela, gritou:
-Oh Machã, machã, vem cá!

Lembrar...

A Mimila contava-me muitas histórias e duma forma, que só ela sabia.
Não há dia nenhum em que não pense nela, por causa de um lugar, de um objecto, de uma pessoa ou das suas histórias, que me repetia vezes sem conta e eu não me cansava de ouvir, pois traziam sempre qualquer pormenor novo.
Além disso, ela própria se achava graça. "Fazia a festa e deitava os foguetes", como costumava dizer enquanto ria com gosto.
Contava que a filha, a Teresa, tinha muita imaginação e de vez em quando lá se "saía com uma".
Um dia chegou a casa muito eufórica e disse: "Minha mãe, vi um avião no céu a voar muito baixinho. Quando eu andava, ele andava. Quando eu parava, ele parava."
A Mimila admoestou-a: "Isso pode lá ser, sua maluca. Onde é que já se viu uma coisa dessas? Ai, ai. Não se dizem mentiras."
A Teresa ficou ofendida e empenhou-se em que a mãe acreditasse, pelo que voltou a afirmar com convicção: "É verdade, minha mãe, eu andava e o avião andava, eu parava e o avião parava. E voava tão perto, tão perto, que eu até consegui ver o cãozinho."
Parou de bordar, olhou admirada para a filha e só conseguiu perguntar: "O cãozinho!!! Qual cãozinho?"
A Teresa, com os olhos postos na mãe e a pensar que já estava quase ganha aquela batalha, respondeu muito alvoroçada: - O piloto, minha mãe. Até vi o piloto.
A Mimila riu e compreendeu que a filha não mentia... imaginava, associando ideias.
(Piloto, Bobi e Lassie eram os nomes mais frequentemente dados aos cães, naquela altura. Agora colocam nomes de pessoas aos cães e já me tenho confundido, quando ouço falar do Adolfo ou do Sebastião!)
Recordo como achava lindo a Teresa chamar "minha mãe" ou a Mimila falar do marido dizendo "o meu homem". Penso que ainda se fala assim no Fundão, pelo menos nas pessoas que não passam férias no Brasil ou em Cuba.
Quando alguém dizia "o meu marido", havia logo quem brincasse... "o meu marido, foi ao mar e ficou encolhido!"
E eu ainda gosto de ouvir dizer "o meu homem".
(Esta foto mostra o que eu via da varanda da sua casa, varanda onde passámos muito tempo juntas. O marido era o proprietário de um dos táxis que se vêm frente ao edifício. No r/c funcionava a praça e no 1º andar, o casino.
O jardim com o pelourinho, era o palco de todas as nossas brincadeiras.
Lembrar, sabe bem.

17/05/2008

Boa disposição

Muitos anos sem o convívio com os fundanenses genuínos, fez com que me esquecesse de palavras engraçadas que se dizem por aqui. Ultimamente, desde que venho cá com regularidade, tenho ouvido algumas, que relembro com saudade.
Hoje fui ao Centro Comercial mesmo ao lado da casa da minha mãe, para comprar pão.
Estava a ser atendido um casal muito risonho e eu esperei, como é normal.
Entretanto a senhora dizia: Ai menina, parece-me que o pastel de nata se está a rir para mim, parece que diz "comei-me, comei-me", o melhor é fazer-lhe a vontade.
A empregada riu-se e foi buscar o pastel de nata.
A senhora voltou a dizer: Olha para isto... tão airoso, até era pecado não o atender!
Riram-se todos.
Preparava-se para comer o bolo, quando disse em laia de justificação: Temos que levar a vida a rir!
A empregada, já a servir o meu café, respondeu-lhe : Tristezas não pagam dívidas.
E a senhora pronta a "fazer a vontade" ao pastel de nata, disse: Se pagassem, andávamos todos monos.
Lembrei-me de ouvir chamar a alguma criança que amuara- "Está feita mona!"
Achei graça e ri também.

03/05/2008

Rua da Cale

Fundão, Rua da Cale.
Rua estreita, de casas velhinhas, lojas pequenas, que começa perto do Largo da Igreja e acaba no Largo das 8 Bicas.
Numa pequeníssima lojinha, encontrei as linhas de boa qualidade, que procurava para fazer uma renda especial.
Uma mercearia à moda antiga, vende os biscoitos tradicionais do Fundão, embalados como as regras modernas exigem, mas tenros e com o sabor dos tempos em que era criança.
Na loja dos tecidos a metro, ainda aceitam dar uma afinação à máquina de costura Singer, oferta da avó Helena e que continua muito útil, 30 anos depois.
Lá ao cimo, na loja de móveis, vê-se a mesma arrumação de há 50 anos, onde peças antigas em 2ª mão, verdadeiras raridades que eu adoro, permanecem encavalitadas, aproveitando todos os centímetros de espaço existente tanto em largura, como em altura. São arranha-céus de cómodas, mesinhas, cadeiras e bancos.
A taberna de portas gémeas de empurrar, banco corrido encostado a uma das paredes, balcão de madeira escura e pouca luz, onde continuam a servir as sardinhas em molho de escabeche, os quadradinhos de bacalhau frito e os peixinhos da horta (feijão verde frito com polme de ovo) para acompanhar o "copito", que aguça a conversa no fim da tarde, é o ambiente preferido dos que não gostam de beber "finos" e comer tremoços salgados na esplanada, nem de falar de política.
O fotógrafo deixou a sua arte aos filhos, que ainda expoêm na velha montra, as fotografias de casórios e primeiras comunhões, em poses solenes.
Havia ali uma mercearia de enchidos e queijos da serra, em que o proprietário era tratado por "Fala-Barato". Hoje, em vez dos aromas do presunto e do salpicão acompanhados com conversa amistosa, sobressaem t-shirts com desenhos de banda desenhada americana, em tons escuros e fluorescentes.
Na Rua da Cale as pessoas caminham devagar, de braço dado, olham as pequenas montras com atenção, cumprimentam os comerciantes a quem perguntam por um qualquer familiar doente e escolhem, experimentam ou trocam o que finalmente se decidiram comprar, porque não combina com o que têm em casa.
É um restinho do Fundão antigo, onde não há promoções e filas para a caixa, onde não há parque de estacionamento, nem se paga com cartão, onde as pessoas se conhecem, se falam, se desejam boas melhoras ou boa saúde.
As grandes superfícies, as lojas irmãs de tantas dezenas por esse país fora, os carrinhos de meter a moeda e os sacos com publicidade, estão no outro lado do Fundão. No bairro da indiferença e do dinheiro de plástico, dos excessos e do desnecessário, das utilidades e das futilidades.
Na Rua da Cale os passeios são estreitos, como estreita é a própria rua, as casas são pequenas tal como os lucros dos seus proprietários, o movimento é lento, dando tempo para uma troca de palavras, mas o ambiente é familiar e o sorriso franco.

20/04/2008

Ecos

É estranho recebermos notícias de pessoas com quem não temos contacto há muito tempo, por terem lido as nossas palavras nestes recortes. Estranho, porque não imaginamos quem abre o nosso diário, mas também muito bom.
Recebi um comentário de alguém que pensava conhecer-me e me enviou algumas pistas, para saber se eu a reconheceria.
Fiquei confusa por causa de algumas fotos do seu blog, em que aparece uma mulher muito bonita, mas jovem demais para se lembrar da minha adolescência.
Enviou-me outras pistas, o que agradeço, pois foi muito agradável para mim percorrer os caminhos de volta e ir tropeçando em memórias que tinham passado um pouco diluídas nas paisagens mais desfoscadas pelos anos.
A Manela era mais uma das amigas que vivia no Largo da Igreja. Compreendo porque hoje o velho Largo parece morto... Tantos jovens tinham mesmo que fazer efervescência na calçada de granito, nas paredes de cantaria.
Levantar cada pedra do seu blog, onde estão escondidas obras de arte em fotos, em gravuras e em sentimentos, deram-me alguns minutos de muito prazer e deixaram-me pesar quando chegaram ao fim.
É muito bom ver os magníficos caminhos percorridos pelas pessoas da nossa terra.
Boa terra e boas sementes... dão boas colheitas!

19/04/2008

Recordações como gargalhadas

As recordações são como as gargalhadas, começamos por sorrir, rir e daí a pouco as gargalhadas ecoam sonoras, dando expressão ao contentamento da nossa alma em voltar as vestir as roupas de tempos mais felizes.
Um comentário deixado neste meu album de recortes por Frioleiras ( cujo perfil sensivel e de bom gosto que pude apreciar nas suas fotos, não me deixou pistas suficientes para a minha fraca memória identificar) fez-me lembrar do mundo que cabia no Largo da Igreja, o coração do Fundão, quando na minha idade não se encaixavam ainda preocupações, queixumes e solidões.
Era grande e cheio de vida. Hoje, pergunto-me se encolheu, se mirrou, se morreu... Para mim, era o sítio onde havia de tudo, onde tudo era perfeito. Agora está sem alma e sem cor.
Ou talvez porque nesse tempo, via-o com os olhos do coração...
A começar pelo Café "Misérias", nome que alguém lhe chamou uma vez e ali mesmo se fez o baptismo, porque nunca mais foi conhecido por outro. Era enorme, lá ao fundo tinha uma porta ao lado balcão, que dava para uma saleta. Fui muitas vezes aí brincar com a filha dos donos do café, minha colega na escola. Não sei porque lhe deram esse nome, pois era espaçoso, com enorme montra para o Largo por onde entrava muita luz. Talvez tenha sido alguma característica de poupança dos donos! Depois a mercearia onde a minha mãe comprava o café acabado de moer. O cheiro do café está na minha memória como se tivesse acabado de lá entrar agora mesmo.
O meu pai contava a história do homem que foi lá e pediu 5 tostões de café. O dono da mercearia chamou o empregado e disse:- Fernando, dá aí o café a cheirar a este senhor!
Muitos anos fiz aquela bebida dos deuses à moda do Fundão. Tinha uma grande cafeteira de água a ferver, da qual separava o equivalente a um terço. Juntava 2 ou 3 colheres bem cheias de café e mexia bem. Depois voltava a deitar a água que separara e esperava uns minutos. Era uma delícia, com bolo de azeite e queijo da serra...
No primeiro andar do "Misérias", era o consultório do Dr Mendonça, que tinha o diploma num grande quadro, com moldura a condizer com a fita amarela e o selo da Universidade. Era um diploma pomposo e eu adorava ir lá só para o rever!
Outra amiga com quem dividi muitas horas da minha vida, mesmo depois de adulta, era a Ana Maria. O pai tinha ali também uma mercearia em que a especialidade era o bacalhau. Eu via, com admiração, o pai da Ana cortar o bacalhau naquela guilhotina enorme e caírem os bocados ao lado, com o corte bem certo e a medida exacta- era o Sr. Manuel, irmão da Mimila, sorridente e bonitaço nos seus olhos azuis.
Ao lado e antes da capela da Misericórdia, era o consultório do médico de todos nós, o Dr. Amaral. Pai das minhas amigas, médico de todos os da minha geração. Era médico de clínica geral, mas (emende-me quem saiba mais do que eu) arrancava dentes, fazia partos, sei lá... Subir aquelas escadas era intimidante, tenebroso. Não sei porquê, talvez pela ideia de se ir ao sr. doutor!
No lado oposto, o melhor da festa- a Electrogardunha. Quando apareceu a televisão no Fundão, esta casa de electrodomésticos colocou uma na montra. Muita gente se juntava na rua para ver, embora o programa mais frequente fosse a foto de um riacho com árvores nas margens e a palavra Interlúdio como legenda. Eu ia lá espreitar o Franjinhas, um cão de pano com franja de lã, que falava!!!
Ali mesmo ao lado, vivia a Céu (o pai tinha uma loja de cabedais) e mais à frente a Anita (constantemente mudava de casa, embora todas fossem grandes e bonitas).
As árvores faziam a esplanada para as nossas conversas de adolescentes, a casa de electricidade exibia os "single" e os "LP" que estavam no top e a torre da Igreja dava as horas repetidas, lembrando a recomendação para a hora de estar em casa.

12/04/2008

Sobressair

Por falar do meu avô Leal...
O pai da minha mãe era o único filho homem, dos quatro que meu bisavô teve. A tia Rita, A tia Delfina e a tia Celeste eram as suas irmãs.
Era uma pessoa com estudos e com bens. Andou por fora, como diziam no Fundão e quando regressou era um solteirão no meio das mulheres.
Casou com 50 anos, com a minha avó, ruiva, de pele muito branca e com 25 anos, metade da sua idade.
Faleceu no ano em que eu nasci e só o conheço pelas fotografias.
Contam que numa terra distante, ao verem um homem tão alto, se admiraram.
O meu avô respondeu-lhes -"Lá na minha terra, sou o mais baixinho de todos!"
Ao que eles exclamaram -"Credo, vem da casa do diabo!"
Hoje o meu avô não daria tanto nas vistas...

Conchas de prata e laços

Perto da nossa casa, em frente do Café Aliança, havia uma ourivesaria propriedade do Sr Saraiva, mais conhecido por Saraivinha, por não ter mais de 1,40 m de altura.
Era casado com uma senhora igualmente pequenina, ou até um pouco mais baixa que ele.
Lembro-me de os ver na rua, de braço dado, dando passinhos pequeninos que me faziam lembrar as gueixas que vira no cinema.
Parece que não gostava que o tratassem por Saraivinha, mas as pessoas já o tratavam assim há tanto tempo, que até eram capazes de jurar que o seu nome era aquele.
Um dia eu precisei de uns elásticos para um trabalho da escola e a minha mãe disse-me que fosse pedir ao Saraivinha, pois para aquele trabalho ficavam bem os elásticos que ele usava para fechar as caixinhas do ouro. Mas a minha mãe recomendou-me logo que o tratasse por Sr. Saraiva.
Eram 7 ou 8 passos até lá e mesmo assim repeti o nome várias vezes para não me esquecer.
Na loja havia uma senhora a comprar qualquer coisa para oferecer não sei a quem.
Enquanto esperava, reparei nas coisas tão bonitas que ele tinha na vitrine, à altura dos meus olhos. Havia uma concha em prata e ao lado uma pombinha com pérolas nas asas. Atrás, uma coroa de folhinhas com pérolas também. Um laço com duas pontas, tinha ao meio uma pedra azul, cor do céu, que eu achei ser a mais bonita de todas.
De repente, ouvi uma voz a chamar-me e fiquei atrapalhada. Tinha-me distraído e esquecido completamente do que me trouxera ali.
"-Sr. Saraivinha, vinha pedir se me podia dar 2 elásticos para fazer um trabalho da escola, por favor."
Com ar de enfado, abriu uma gaveta, tirou dois elásticos e deu-mos.
Agradeci e saí a correr envergonhada, por me ter atrapalhado e dito o nome que ele detestava.
Quando olhei para os elásticos, fiquei surpreendida por serem tão pequeninos. Mal estiquei o primeiro, saltou-me das mãos e desapareceu.
No Fundão, um dia houve um jogo de futebol de solteiros contra casados, contaram-me.
Os guarda redes da equipa dos casados era o Saraivinha e da equipa dos solteiros, era o meu avô Leal, que media 2,02m de altura.
Mas... os homens não se medem aos palmos! Não me contaram foi se houve golos...

08/04/2008

O n.º 10

Nós morávamos no Largo José Barata, nº10, agora de novo com o seu nome primeiro - Largo da Praça Velha. Era uma casa grande, com r/c, 1º e 2º andar, que dava para duas ruas.
Muito da minha infância ficou entre as pedras que tiraram daquela casa, para construir uma outra, descaracterizada, pensada apenas para exposição de móveis.
Quando entrei na escola, já lá vivíamos. Todas as divisões me lembram histórias engraçadas.
Tinha janelas altas, com uma pequena grade de ferro trabalhado a 1/4 da altura e duas portadas.
A porta dava acesso a uma escada que levava ao 1º andar. Ao cimo da escada, o corredor com portas de um lado e doutro.
Mais à frente estava a escada para o 1º andar e outro corredor mais pequeno para a sala de jantar, a cozinha e a marquise a toda a largura da casa.
A marquise dava ainda para uma varanda e para o quintal. Era ali que nós gostávamos de brincar e era nesse quintal que habitualmente nos tiravam as fotografias a franzir os olhos com o Sol.
Na Primavera, os beirais do telhado enchiam-se de ninhos de andorinhas e em cada entardecer os fios da electricidade serviam de baloiço às tão graciosas aves.
Nos domingos ia à Missa com a minha mãe e no regresso tinha de vestir o bibe para não sujar a roupa de ver a Deus. Tinha vários bibes, mas todos do mesmo género, com folhos nas alsas, nos bolsos e a rematar a saia, com histórias bordadas a linhas coloridas. Recordo a da Carochinha, que encontrou um tostão quando varria a casa e foi para a janela procurar com quem casar.
"- Quem quer casar com a Carochinha que é linda e engraçadinha e tem um tostão na caixinha?"
Então, sentava-me no peitoril da janela, donde atirava algodão em farrapinhos, que as andorinhas apanhavam em voo rápido.
Era uma casa especial. Apesar de já não estar lá, continua a povoar as lembranças da minha infância.

Amália

Diziam, no Fundão, que Amália Rodrigues tinha lá nascido. Lembro-me de ter lido em qualquer lado, que ela era Lisboeta. No entanto o meu pai afirmava que a grande fadista vivera com os pais e irmãs no Largo da Fonte das 8 Bicas, numa casa com dois degraus de granito, que me mostrava cada vez que lá passávamos.
Contava também, que a via muitas vezes em Alcântara, quando esteve na Marinha. Podia não ser ela, pois as irmãs são muito parecidas, mas sentia muito orgulho dessa proximidade com a sua Diva.
Na casa da quinta, no beirado por cima da janela do quarto dos meus pais, havia um meio cano que encaminhava as águas da chuva. Todos os anos, na Primavera, um passarinho fazia ali o ninho. Começava a cantar assim que o sol ameaçava aparecer no horizonte.
Por isso o meu pai baptizou-o com o nome de Amálio, rindo em gargalhada franca, em que mostrava os dentes brancos e certinhos, de meter inveja.
Era o meu pai que nos acordava todas as manhãs, nos dava o pequeno almoço e nos levava para o colégio, enquanto a minha mãe ficava mais um bocadinho na cama. Ela sempre gostou mais de fazer serão, ao contrário do meu pai, que mal se sentava, adormecia.
Então o passarito, logo de madrugada, cantava que se desunhava. Só que a minha mãe queria dormir...
Depois de muitos protestos sem resultado (o Amálio não entendia essas coisas de ficar na cama a "dormir à pressa", como nos dizia o meu pai quando lhe pedíamos mais uns minutinhos na hora de levantar) a minha mãe pediu-lhe para deitar abaixo o ninho do incómodo hóspede. Pediu várias vezes, mas o meu pai, entre uma gargalhada e uma resposta de "está bem", ia adiando o sacrifício, até que o Amálio partia de novo com a sua prole de tagarelas e deixava os inquilinos descansar.
Plantei uma árvore no jardim desta casa e também aqui um passarinho vem sempre na Primavera fazer ninho. É mesmo em frente do meu quarto e todas as manhãs o ouço cantar e conversar com a sua eleita e os seus rebentos.
Ontem estava um temporal terrível e eu só ouvia a chuva bater na grade da varanda. O meu Amálio estava caladinho e aninhado, calculo eu, no fundo morno do seu ninho.
Fez-me falta a sua cantoria.
Hoje, voltou a sorrir o Sol, embora tímido e em aparece-esconde. De novo o Amálio me fez companhia, cantando bem afinado para me dar forças para ir trabalhar.
O meu amor por ele foi uma das razões porque o meu pai sempre se fez esquecido do pedido de despejo. Quem sabe não me seguiu desde os tempos da quinta, através dos seus filhotes e dos filhotes deles? A Natureza é sábia e encaminha os seus filhos como mãe cuidadosa. Obrigada Amálio. Volta sempre.

09/03/2008

Cria fama e...

"Cria fama e deita-te a dormir", diz o ditado popular.
Há dias, falei com uma pessoa que conviveu comigo na minha adolescência e que eu já não via há muitos anos.
Falou-se da saúde, como é habitual e a certa altura ela referiu-se ao meu hábito antigo de fumar.
-Eu nunca fumei - respondi-lhe.
-O quê? Então eu não sei que fumavas? - insistiu.
Eu nunca fumei.
É incrível como as pessoas nos vêm com os seus olhos, através dos anos, colocando nos nossos ombros vidas que nunca vivemos e quando confrontadas com a verdade, têm mais facilidade em duvidar da nossa palavra, do que em reconhecer o seu engano.

11/02/2008

As meias da Ti Maria

No Verão em que passei para o 7º ano do Liceu, tinha um grupo de amigos no Souto da Casa, uma aldeia muito bonita, na encosta norte da Serra da Gardunha, a meia dúzia de km do Fundão.
Da aldeia vê-se toda a Cova da Beira, com a Serra da Estrela como moldura.
Como o nome diz, nas encostas estão alinhados como soldados, exércitos de castanheiros, formando soutos magestosos, que no Inverno têm múltiplos tons de amarelo, mostarda, tijolo e rubro, no Verão perdominando os verdes e no Outono se enchem de ouriços prenhes de frutos castanhos, cor da terra que lhes deu o ser.
O castanheiro sempre foi a minha árvore preferida, pela sua forma, pelas suas cores, pelo formato dos seus frutos, pela sua força.
O Souto da casa, por essa razão também, me encantou sempre e me deixou boas recordações.
É aí que vive a minha amiga Libéria, a casa de quem ia com frequência. É um palacete no centro da aldeia, numa rua com o nome do avô dela.
Ela era filha única e estudava em regime interno, num colégio de freiras em Castelo Branco. Nas férias pedia-me para ir passar lá uns dias, pois sabia que eu revolucionava toda a aldeia num abrir e fechar de olhos.
No grupo estavam os estudantes do Souto da Casa, meus colegas no Colégio do Fundão.
Os passeios à Pedra d´Hera, no cimo da Gardunha, a festa do Senhor da Saúde, as festanças em casa do Mário e do Tonito, as graçolas do Aníbal e do Virgílio... há muito tempo que não me lembrava deste período tão alegre da minha vida.
Foi lá que ouvi uma história a que achava muita graça.
Uma mulher muito pobre, como quase toda a população da Beira, nessa época, trabalhava no campo de sol a sol e regressava à tardinha a casa, em cima do seu burro, que a ajudava a carregar a lenha para o lume.
As mulheres, nessa altura, não saíam à rua sem meias, "com as pernas à mostra", como diziam. Usavam meias grossas, feitas de "fio da Escócia", que poupavam, por serem muito caras para usarem na lida do campo, onde se prendiam e rasgavam nas silvas.
Nesse dia, vinha ela sentada no burro, com os pés nus e a saia só pela barriga das pernas, quando passou em frente da taberna, onde estavam os homens a gozar a fresca do fim da tarde.
Cansada, balouçava sonâmbula a cada passo pesado do jumento.
Um dos homens gritou:- Eh Ti Maria, essas meias é que são boas, não se rompem!
Ela respondeu, sem se desconcertar:- Está vomecê muito enganado. Tenho uma camisa do mesmo pano e já tem um buraco ao fundo das costas.

03/02/2008

Já não se pode beber um copo!

Vou contar uma história verdadeira de um trabalhador do campo, que hoje não sei por que associação de ideias me veio à lembrança e ainda me fez sorrir.
Era um solteirão, com pouco mais de 40 anos, que se matava a trabalhar durante o dia e nunca se deitava sem os copitos da ordem.
Vivia com a mãe, já velhota, (ou talvez não, pois ele também parecia muito mais velho do que era) e lá cuidavam um do outro conforme podiam.
Ele, quando acabava o trabalho, passavva pela taberna e "aqui vai disto" até ficar com as pernas bambas e a vista turva.
Chegava a casa, a mãe lá tinha o jantar à espera. Como já ia meio atordoado, o pobre homem comia e adormecia ali mesmo à mesa. A mãe chamava por ele e muitas vezes lá conseguia convencê-lo a ir para a cama. Um desses dias, comeu a sopa e dormiu em cima dos braços, como era costume!
Demanhã, deu pela falta da dentadura postiça.
A mãe, na tentativa de a ajudar a recuperar aquele valor que tanto tinha custado a pagar, dava voltas e mais voltas à cabeça, tentando compreender o que poderia ter acontecido à dentadura do filho.
Lá se lembrou que ele adormecera sem comer a sopa toda e que ela despejara o que ficara no prato, no caldeiro da comida do porco. Se calhar, pensou ela, acontecera o que já por outras vezes vira... o filho dormia com a boca aberta e a dentadura caía no prato.
Foi à pocilga e procurou. Feliz, voltou ofegante a dar a notícia ao filho. O porco comera os restos do jantar, mas não comera os dentes dele.
Passou-os por água, ali mesmo, na torneira da cozinha e deu-os ao homem que mostrava as gengivas a sorrir.
O porco não era burro!

A Senhora e o novo pároco

Um verdadeiro dia de Inverno no Fundão. Muito frio, muito vento e muita chuva.
A Serra da Estrela está completamente desaparecida no nevoeiro cerrado que ali repousa há vários dias.
As pessoas caminham ligeiras, curvadas pelo esforço em manter o guarda chuva aberto, empurrado pelo vento.
Muita gente se dirige ao pavilhão multiusos, mesmo em frente da nossa casa.
Soube pela Amélia, que sempre me visita quando cá estou, que vai haver ali Missa em homenagem a Nossa Senhora Preregrina , que está no Fundão.
A Beira, como quase todo o país, creio eu, é muito devota de Nossa Senhora de Fátima e vive momentos de verdadeiro entusiasmo, desde que a Santa Imagem iniciou a sua peregrinação pelas freguesias deste Concelho.
Depois da morte do velho pároco, recebemos um jovem padre, dinâmico e moderno, que tem revolucionado toda a actividade religiosa desta terra.
(Deu nas vistas por usar jeans, blusão de cabedal, fumar cigarrilha e conduzir Mercedes. Também causou espanto quando fez obras na casa paroquial, instalou jacuzi e barbecue. Mas depois, fez obras na Igreja e todas as senhoras se ofereceram para doar bordados e rendas, bolinhos e bijuterias para serem vendidos e angariar dinheiro para as pagar. O Mercedes e o jacuzi ficaram esquecidos perante a beleza em que ficou a Casa de Deus.)
Ontem à noite fomos surpreendidos pela procissão das velas, que acompanhando o andor, passou na nossa rua e fez a minha mãe chorar de emoção.
Hoje, ouço os cânticos à mãe de Jesus, Rainha de Portugal, enquanto o vento varre com mau génio, os fiéis mais dedicados.
A contrastar, o atrelado que vende farturas e churros, está iluminado e em plena função, enchendo a rua com o cheiro dos fritos.

02/02/2008

A avenida

A nossa casa era na rua paralela à avenida, no lado direito na foto.
Neste terreno baldio nasceu a avenida, que hoje enormes Tílias enfeitam de verde escuro da folhagem e de pequenas flores brancas de perfume suave. Altos edificios emolduram-na, escondendo a Serra da Gardunha.
O meu pai contava que Duarte Pacheco, então engenheiro e mais tarde ministro das obras públicas, queria rasgar esta avenida da estação de caminhos de ferro até ao Largo da Srª da Conceição, dando uma coluna vertebral ao novo Fundão. Outra avenida sairia da estação até ao Espírito Santo, junto da Estalagem da Neve e ainda outra uniria estas duas ao cima da cidade, criando um triângulo à volta do centro antigo.
Assim, a avenida sairia da estação e seria cortada a direito, passando pela rua onde nós viviamos e indo até à Srª da Conceição.
Mas o projecto não passou disso, porque os terrenos pertenciam ao proprietário desta empresa de camionagem, em primeiro plano na foto, que se opôs porque isso faria recuar bastante a frente da empresa de camionagem já planeada.
Por isso a avenida começou praticamente na empresa das "camionetas" e terminou, logo a seguir, junto ao edifício da Câmara Municipal. Aí dá lugar R. dos Três Lagares, que vai em curvas de serpente adormecida até à Capela da Srª da Conceição. Muitos prédios nasceram e ligam a Aldeia de Joanes ao Fundão de forma desordenada e sem valorizar a beleza que a Cova da Beira oferece naquela encosta da Gardunha. Ideias curtas e... interesses! (doença que se tornou crónica).
Lembro-me de um pormenor do mercado nestes terrenos - uma idosa a apanhar algum feijões que ficaram caídos junto das bancas dos vendedores. Usava umas roupas escuras e compridas, arrastando-as pelo chão, conforme avançava dobrada, a catar na terra os pequenos grãos deixados para trás pelos tendeiros. Também recordo o som esganiçado que se ouvia ao longe, num rádio de fraca fidelidade a transmitir o relato do futebol, nas tardes de domingo.
A meio desta avenida construiram o Externato de Santo António, onde a nossa adolescência despontava e amadurecia, preparando-se para a Universidade e o voo do ninho.
O cinema sobressai ao cimo, ainda com algum brilho. A seguir o Café Cine, onde nasceram os primeiros amores, onde se escreveram os primeiros poemas, rituais repetidos por várias gerações.
Esse Fundão é lembrado por muitos de nós, que vivemos longe, com a memória do coração.

23/01/2008

Em frente de casa, no dia de festa.

No dia do meu aniversário, com a minha mãe, os meus irmãos, as minhas primas e as minhas melhores amigas.
A rua em que viviamos, ao lado do campo onde foi rasgada a avenida, é uma das principais ruas do Fundão.
Naquele campo, todos se juntavam ali nas 2ªs feiras, para fazer o mercado.
Agora não há ali oliveiras, nem pedras amontoadas que sirvam de cenário às fotos nos dias de aniversário... apenas prédios e carros.
O tempo passou depressa!
Eu sou a 1ª da direita e lembro-me que a minha boneca, que a Ana Maria segura, era a estrela de todos as minhas festas. Atrás de mim está o meu irmão Manel, um tanto escondido pelo laço da Luísa. O Tonô está ao colo da minha mãe.
(Todos juntinhos, ao meio, as mais pequenas com direito a uma pequena nesga deixada pela boneca e o fotógrafo, bem afastado para não perder nada do "maravilhoso" cenário!)
E lá tiraram a foto da ordem, para mais tarde recordar.

21/01/2008

As minhas decisões

A minha tia Fernanda, morava no Largo da Igreja e nós viviamos logo ao lado, no Largo José Barata.
Era realmente muito perto e para ir a casa dela, podia ir sempre pelo passeio, só precisando de atravessar uma rua muito estreita e sem movimento.
Todas as 3ªs feiras ia trabalhar a nossa casa uma costureira e eu ficava por ali a brincar de olhos nas voltas que os panos levavam nas mãos da senhora, enquanto os ia transformando em blusas e calções.
Naquele dia, a minha mãe mandou-me levar um recado à tia Fernanda. Eu ia toda contente porque adorava a minha tia e porque gostava de ir à rua, como todas as crianças.
Mas não resisti à tentação e apesar de ser Verão, vesti um casaco comprido que a costureira me fazia e deixara nas costas da cadeira, ainda alinhavado e sem mangas.
Apareci na porta da tia Fernanda com o casaco azul escuro de Inverno, cheio de alinhavos brancos e com os alfinetes a segurar os bolsos e metade da gola.
Mas ia vaidosa e muito feliz no meu casaco novo!

Se viessem e me dessem a escolher...

Quando era miúda tinha uma o hábito de parar em frente das montras e enquanto olhava ia pensando:-Se agora viesse alguém e me dissesse que me dava uma coisa que eu quisesse, o que é que eu escolhia?
Teria começado pelos brinquedos, penso eu. Mas não me lembro de haver uma loja de brinquedos no Fundão.
Não havia grandes superfícies de brinquedos, supermercados ou centros comerciais. Geralmente os brinquedos que tínhamos, eu e os meus irmãos, era o meu pai que nos trazia de Lisboa, de Coimbra ou até de Espanha, onde ia comprar os pneus para os carros.
Havia a papelaria do Zé Henriques que vendia livros de histórias, puzles e alguns brinquedos.
Já então a montra da papelaria tinha montes de coisas que me chamavam a atenção. Ficava a ver os estojos para os lápis, as borrachas, as canetas, os aparos, os livros com capas coloridas e pensava no que escolheria se chegasse ali alguém e me desse uma, só uma, daquelas coisas. O interessante do jogo era ser uma apenas. Tinha de ir excluindo uma a uma até ficar com a que preferia. Demorava muito tempo e enquanto escolhia, falava sozinha. Excluía pela cor, pela forma, pelo tamanho, pela utilidade...
Gostava de antiguidades e passava em frente da loja do Forte para ver os santos, as bacias, os jarros, os ícones, as jarrinhas com desenhos coloridos, as caixinhas de música com bailarinas e os candeeiros de corta luz aos folhinhos. Tentava escolher entre o jogo de xadrez em pedra ou as caixinhas de cristal com damas antigas desenhadas na tampa, os pequenos elefantes de marfim, as tartarugas de cobre ou as molduras de estanho com raminhos de flores a um dos cantos.
Mais tarde comecei a demorar-me nas montras das ourivesarias.
Adorava jóias. O formato, as cores e o brilho fascinavam-me.
Ficava frente ao Riscado a escolher o anel com um nó, a pulseira de malha batida com um fecho trabalhado e uma pedra azul no centro, o fio com várias voltas cheio de pedras coloridas... sei lá. Todas me agradavam, por uma ou por outra razão e eu sonhava que uma delas me seria oferecida sem mais nem menos, por artes mágicas.
Era a minha mania, a maneira de eu sonhar, por momentos, ter as coisas bonitas que não podia comprar.
Ainda hoje eu paro e fico imenso tempo a escolher, mas o meu pensamento apenas mudou um pouco quando substituo "se viesse alguem e me dissesse para escolher" por "se me saísse a sorte grande", porque aprendi que só tenho aquilo que consigo pagar.
Continuo a gostar de antiguidades, de jóias e de livros (esses são os que mais vezes me vencem e eu levo comigo depois da habitual exclusão, quase sempre sugerida pelo preço!).
Esta semana há jackpot no Euromilhões e quero jogar. Se me sair vou comprar... uma loja para o meu filho montar a sua livraria e espaço net, uma casa para a minha filha e para mim... bem... para mim...

05/01/2008

Friiio...

Estou no Fundão mais uma vez e hoje está muito friiiiio!
O dia amanheceu com dificuldade, porque está um nevoeiro cerrado.
A casa está aquecida e até costumo ter calor, pelo que logo pela manhã, abro as janelas e deixo o ar fresco entrar na casa onde a doença da minha mãe me deixa deprimida. Mas hoje o ar está gelado e tive de voltar a fechar tudo.
Olho pela janela, sem vontade de me aventurar a ir tomar um café.
Não se vê viva alma na rua e uma ou outra pessoa que passa, vai encolhida, com o nariz vermelho, os cabelos arrepiados e as mãos escondidas no fundo dos bolsos.
Nas notícias dizem que em Espanha não se pode circular por causa da neve e na Roménia, a terra do meu amigo Marcel, o termómetro atinge os 24 graus negativos.
As grandes tílias da avenida finalmente estão a deixar cair as folhas, pois com os dias de sol e temperatura amena, as pobres andavam confusas... não sabiam se era Primavera, se Outono!
Este nevoeiro é sinal de que na Serra da Estrela está a vestir o seu vestido de noiva e aparecerá, logo que a cortina de nuvens se afaste e surjam raios de sol descorados e tímidos, com o seu tradicional manto branco bordado de cristais e olhar de soberana sobre toda a Cova da Beira, que sempre se curva à sua beleza e majestade.

01/01/2008

Trastes para a rua.

Vivi já noites de passagem de ano de todas as maneiras e feitios... infelizmente, pois é sinal que já festejei mais do que tenho para festejar.
Lembro-me de um ano na Idanha-a-Nova, na casa da Tia Fernanda, quando ainda era pequena.
Fui lá passar as férias do Natal e à meia noite a minha tia cumpriu com a tradição daquela terra arraiana, ou seja, deitar pela janela fora todos os objectos usados que não gostasse.
Procurámos tachos amolgados, pratos com pequenas falhas, canecas, frigideiras, tudo o que por ali andasse já pouco apresentável.
Carregámos montes de tralha para perto das janelas do último andar da casa e esperámos com impaciência pelas 12 badaladas.
O frenesim dos meus primos espantava-me, pois eu pensava que iriamos atirar aquelas coisas todas pela janela, que desapareceriam no escuro da noite e pronto, estaria cumprido o ritual.
A minha tia vivia no centro da Idanha, onde as casas são antigas, a iluminação fraca e o movimento nas ruelas praticamente nulo.
Na noite de passagem de ano, com frio, tudo estava silencioso e escuro, nada de emocionante se antevendo.
Quando começaram a soar as badaladas da meia noite, ouviu-se uma gritaria ensurdecedora vinda de todas as janelas, seguida de bater de latas e tachos, de atirar coisas que se partiam no chão com estrondo e embatiam nas paredes de pedra como bombas, sucedendo sempre a um ruído grande, outro ainda maior.
Mas era uma gritaria alegre, entusiasmada, contagiante, que me fazia rir e saltar de emoção, uma barulheira infernal que durou enquanto duraram os tarecos que viram o seu fim nas ruas e quintais da Idanha.
Por fim, a pouco e pouco a noite voltou a ficar quieta e silenciosa como antes .
Atiraram-se fora os trastes velhos e pouco decorativos, para começar o ano com a casa e a alma mais livres para as coisas novas.

29/12/2007

O madeiro

No Fundão, alguns dias antes do Natal, um tractor levava grossos troncos de árvore e outra lenha mais miúda, para o largo da Igreja, onde montava uma grande pirâmide em frente da porta principal.
Depois, na noite de Natal, acendiam o "madeiro".
O calor da fogueira reunia muitos homens à sua volta, que cantavam canções ao Menino Jesus, desde a hora do jantar até à meia-noite, quando começava a Missa do Galo.
O frio intenso dessas noites, conhecidas como as do caramelo, por se formar gelo sobre tudo o que esteja ao relento, fazia com que enrolassem agasalhos ao pescoço e esfregassem as mãos depois de as aquecer nas chamas coradas que subiam e se escapavam pelos intervalos dos troncos.
Era a sala de visitas da grande família, que festejava a noite de Natal no Fundão.
Havia sempre protestos de quem habitava nas casas mais antigas em frente da Igreja, pois temiam que as fagulhas que subiam ao céu com a força do vento gelado, deitasse fogo aos sobrados podres e desprotegidos.
Mas nunca deixaram de fazer "a fogueira do Menino Jesus" e nunca ardeu nenhuma casa.
Este ano a fogueira foi pequena, apenas simbólica e por isso não houve canções ao "Meu Menino tão Belo, que logo foste nascer na noite do caramelo".
A Igreja foi restaurada e pintada e o Pároco não quis as paredes enfarruscadas com os fumos do "Madeiro".
Quem sabe se no próximo ano não colocam um artefacto eléctrico no meio do largo, que imite as chamas e substitua o calor, evitando a canseira de transportar os troncos, a paciência para os atiçar e o cuidado para não ficarem braseiros esquecidos nos dias seguintes?
É que agora substitui-se tudo por algo mais cómodo, embora a fingir.
O pinheiro já é de plástico, o gelo que se forma nas madrugadas gélidas é de esferovite, o musgo do presépio é de serradura e o Menino Jesus, dantes em louça fina cuidadosamente pintada, agora é de material sintético, lavável e inquebrável... tudo para ser reutilizável ano após ano.
E tudo o que tornava aquela noite tão comovente, se transforma em objectos "made in China"que se podem ver expostos aos milhares nas lojas dos 300 ou nos chineses que proliferam por todas as terras, mesmo as que não têm posto médico, ou viram fechar as escolas, ou só abrem as portas da Igreja nos dias de festa.
Portugal moderniza-se e perde a identidade. Os jovens do Fundão festejam o Natal mandando emails aos amigos, frente ao computador silencioso que lhes faz companhia serão dentro.
Não conhecem o perfume das ramadas de eucalipto a arder, o som do pinheiro a crepitar e o calor da lenha de oliveira, que em grossas brasas incandescentes iluminam a noite com volteios de cor intensa, como que dançando ao som das canções de embalar sussurradas para adormecer o Deus Menino.

28/12/2007

Quebrou-se o encanto

Seria desta idade, ou um pouco mais velha, quando ficou pronta a casa da quinta e fomos passar lá a noite de Natal. Tinha 10 anos feitos em Junho e frequentava o 1º ano do liceu.
Depois da Missa do Galo, já cansados de tanta excitação para fazer o presépio e moldar os bonecos da massa das filhós, bebíamos cacau quente e comíamos filhós, fatias douradas e outros doces tradicionais.
Antes de irmos dormir, deixávamos o sapato junto da lareira, para recebermos os presentes do Menino Jesus, que só veríamos pela manhã.
Nesse ano, a minha mãe mostrou-me o casaco de veludo cotelé, azul-escuro, que me iria colocar no sapatinho, convencida que eu já não acreditava na magia de um presente caído do céu.
Eu fiquei triste e desiludida.
Não tenho a certeza se acreditava mesmo que era o Menino que nos trazia os presentes, mas o desfazer definitivo daquele encantamento fazia-me sentir que o Natal nunca mais seria o mesmo.
Enquanto todos entravam na encenação da noite de Natal, era como se qualquer dúvida não tivesse razão de ser, como se se diluísse entre os odores da cozinha e as cores dos enfeites. A partir daquele momento, o sonho deixava de valer a pena. Levantara-se o véu e tudo era banal e conhecido, sem brilho e sem magia.
Ainda hoje só me entusiasma festejar o aniversário de Jesus de Nazaré, tal como o do meu filho Frederico, nascido poucos minutos depois da meia noite do dia 25 de Dezembro.
O saco vindo da modista, que a minha mãe abriu e donde tirou o casaco que eu esperava, trouxe também a sensação de que deixara de ser criança e entrava para o mundo dos mais velhos que não se mostrava nada sedutor.

09/12/2007

Casaquinho cintado...

O meu tio era muito vaidoso.
Era bonito e elegante, pelo que alguém o convenceu que era um "astro". Fazia ginástica em casa para desenvolver os músculos e penteava-se constantemente com todo o cuidado para estar sempre alinhado.
Era simpático e cativava quem chegava. Nem sempre agia da mesma forma com os de casa, mas como já está onde se prestam contas, isso agora não vem ao caso.
Como a minha tia era a única irmã, ainda viva, da minha mãe, juntávamo-nos nas datas festivas, como o Natal ou a Páscoa.
Naquele ano, a noite de Natal calhou ser na casa da minha tia.
Jantámos e ficámos por ali a ajudar a fritar as filhós e as fatias douradas, a pôr a mesa, a dar os últimos retoques no presépio.
Agora não é preciso essa desculpa para comprarmos trapos e mais trapos, mas nessa altura era costume vestirmos roupa nova nos dias de Festa.
A minha tia tinha mandado fazer um fato saia casaco para estrear no dia de Natal e colocara-o nas costas da cadeira no quarto.
Na hora da Missa do Galo fomos todos para a Igreja.
Muito frio e muito sono... era o que eu sentia durante a Missa. Arrefeciam-me os pés e o sono teimava em fechar-me os olhos, cabeceando de vez em vez.
A saída tão esperada lá nos acordava e a ceia era mais animada.
Eu, os meus dois irmãos e os meus quatro primos, todos de idades próximas, fazíamos barulho a tagarelar e a rir por qualquer coisa.
A certa altura, a minha tia olhou para o meu tio e perguntou: "Que estás a fazer com o meu casaco vestido?"
Olhámos todos e lá estava o meu tio com o casaco novo do fato saia casaco.
Como era da mesma cor, na hora de ir para a Missa, vestira-o sem reparar que não era o dele.
-"Por isso é que eu me senti tão apertado durante toda a noite!"
Nós riamos e o tio barafustava zangado, só de pensar na hipótese de alguém ter notado o feitio cintado do casaquinho de senhora que usara na Missa do Galo!

02/12/2007

Lua de mel

Esta escapou...
A minha mãe não aplicou a tesoura nesta. Até fico admirada!
A tia Fernanda, está vestida com um fato saia casaco muito elegante.
O tio Hermínio lê o jornal, quadro que me habituei a ver durante anos e anos.
A Amélia devia ter ao colo o Tó-nô... Como era gordo e pesado, a Amélia tinha sempre aquele esforço estampado no rosto.
Não consigo explicar quem é a quarta senhora, sentada ao meio, sobressaindo na coluna branca.
Acho que este passeio a Tomar, foi perto do casamento dos meus tios.
Penso que foi mesmo durante a sua lua de mel.
Se estou certa, gostava de saber que estava tanta gente a fazer com os noivos?

A censura da tesoura!

Mesmo de férias e na praia, como única filha, eu tinha de estar sempre vestida e penteada a rigor. Só o boné destoa!
E tinha fama de mau feitio... pudera, abusavam da minha paciência.
Por isto tudo compreendo agora porque gosto tanto de andar de jeans e t-shirt!
O Tó-nô lá conseguiu escapar, mas o Manel está mesmo com caraça!
E o rosto recortado!!! A minha mãe fazia isto a quase todas as fotos. Quando achava que não ficava favorecida, cortava a cara com uma tesoura e pronto...
Já são poucas as fotografias daquele tempo e as poucas que encontro, ainda estão assim!
Ah! Um último reparo... a camisa de flores! Que chique!!! Seria por causa dela que o Manel estava de trombinha? É que naquela altura, era pouco frequente verem-se camisas havaianas nos "machos". Que pena não se ver a cor... seria cor de rosa?

25/11/2007

Laranjas da Baía

No jardim da quinta havia uma laranjeira, lá ao fundo, à entrada da garagem dos tractores, que na altura desta foto, já tomava corpo.
Enchia-se de flor e tinha 3 camadas de laranjas: verdes pequeninas, médias e já maduras. Tinham muito bom aspecto, tanto em tamanho, como em cor. A laranjeira, no entanto, era brava.
Fora enxertada por diversas vezes, mas os enxertos não pegavam e a laranjeira lá continuava a crescer, a florescer e a carregar de frutos, sem se deixar domesticar. As laranjas apesar de óptimo aspecto, eram de casca grossa, sem sumo e azedas como o vinagre.
O meu pai desistiu de a domar e deixou-a no seu estado natural, pois com o verde da folhagem, o branco da floração e a cor viva das laranjas, enfeitava o jardim.
Todas as pessoas que iam à quinta, mal olhavam a laranjeira, cobiçavam as laranjas. Muitas vezes colhiam uma disfarçadamente e descascavam-na com pressa, para a comerem sem serem apanhadas.
Ao meterem o primeiro gomo na boca, davam um grito, fraziam o nariz, os olhos e a testa, atiravam-no ao chão com pressa e cuspiam tudo entre arrepios de morte.
O meu pai, que observava pelo canto do olho, parecendo distraído, dava uma gargalhada sonora, a que juntava uma ou outra frase engraçada e todos acabavam por rir.
Vezes sem conta este episódio se repetiu e outras tantas vezes nos fez rir com vontade, pelo engraçado da situação e pelo bom humor do meu pai, que se divertia com as coisas mais simples.

13/11/2007

Sem limites...

Sonhava-se sem limites.

As profissões passaram a não ter sexo. As mulheres podiam ser médicas, advogadas, juízes, motoristas de táxi, etc. Tinham queimado o soutien como acto simbólico, mas todos os dias novas conquistas eram feitas. O que parecera um acto escandaloso e leviano, mostrava ser a ponta do novelo.

Os rapazes usavam os cabelos compridos, as roupas justas, as calças boca de sino. Modernices, cabeludos, o fim do mundo... diziam os mais velhos. Os jovens apenas fugiam às convenções e passaram a criar, a olhar a vida com mais liberdade.

Não se escolhiam só os filhos para mandar estudar... as filhas começavam a ser olhadas como tendo direitos também. Casar deixava de ser destino obrigatório e único para uma jovem adolescente.

Não havia ainda escolas, nem transportes, nem posses para se pagarem estudos... mas o sonho começava a poder realizar-se, a tomar formas mais possíveis, a concretizar-se.

O meu sonho foi sempre o mesmo. Um sonho a que chamavam a

Chegaram os Beatles!

Tudo era novo. Tudo era diferente. Começava a brotar a criatividade e a irreverência.
Eu sonhava em tornar-me jornalista. Foi a profissão que mais desejei ter, durante muitos anos. Escrevia em diários, escrevia poesias, escrevia artigos que eram publicados em revistas menos famosas e jornais de província.
Um poema meu encheu totalmente a 1ª página do Jornal de Castelo Branco no dia de Natal.
A música enchia os meus dias e embalava os meus sonhos de poder vir a ser uma escritora.
Chegou a mini-saia. Todas as adolescentes usavam os cabelos compridos e lisos. Os discos e os gira-discos já não eram novidade. E chegaram os Beatles!
Rebentara a... revolução!

09/11/2007

Frio do Outono, calor do amor

Um dia de sol no fim do Outono.
O meu pai recebia os netos, talvez para o habitual almoço de sábado.
A Bagui, toda decidida, caminhava para casa, enquanto o Pedro se ficava pelo aconchego da mãe e do avô.
As dornas que serviram na vindima e estavam a lavar antes de voltarem para a adega, junto das videiras da latada, que esperavam a poda lá mais para o Inverno.
A seguir, o olival, os edifícios do lagar e da adega e bem ao fundo, parte da Serra da Gardunha, assistindo magestosa à mudança das estações.
A pressa da Bagui já se compreende.
A avó tinha sempre umas bolachinhas para "entreter a debilidade", como dizia o avô, que lhe deu um sorriso de orelha a orelha.
O Pedro vem muito bem trajado... calças de fazenda com vinco, camisola de lã e colete sem mangas. Não sei porquê, mas cheira-me a que são tricots feitos pelas vóvós!
Nesta varanda simples, sem luxos, vivemos muitas horas de boa disposição.
Aqui crescemos com o ar puro da Serra, o aconchego da nossa terra e o calor do amor.

Kubitchec de Oliveira

O presidente do Brasil vinha a Portugal e visitava o Fundão, penso que a convite do Jornal do Fundão, um semanário com tradições de luta antifascista.
Eu tinha então 13 anos, estudava interna no colégio de religiosas Doroteias, na Covilhã.
Nada sabia do Brasil, nem do seu presidente e muito menos do que representava o Jornal do Fundão na vida política da minha terra.
A verdade é que as Doroteias, freiras educadoras, iriam festejar a vinda de tão ilustre personagem à Covilhã, uma vez que era à porta do colégio que o carro do visitante parava e iniciaria o percurso a pé, até ao pelourinho, onde faria um discurso.
Resolveram escolher uma menina entre as alunas, que iria entregar um ramo de flores ao presidente brasileiro e apresentar os cumprimentos do colégio.
Foi cuidadosamente enfeitada a entrada, mandadas vir as alunas com o uniforme dos domingos e encomendadas as flores. Depois foi escolhida a aluna que iria entregar as flores.
Fiquei admirada quando me escolheram. Ainda hoje não sei qual o critério que seguiram.
Na hora da chegada da comitiva, fomos todas perfiladas à porta do colégio e eu fui colocada ao meio, com as flores nas mãos.
Durante a espera, todas as minhas colegas queriam saber porque fora eu a escolhida e eu, ingenuamente, quase lhes pedia desculpa.
Depois de grande espera, com muita gente amontoada nos passeios, lá começamos a avistar os carros a que as pessoas acenavam com entusiasmo.
Nervosa, endireitei as costas e pus o meu melhor sorriso.
Os carros pararam mais à frente do que o que tinha sido estipulado e a multidão correu atrás.
Eu fui empurrada pela rua acima, com as flores na mão e sem quase pousar os pés no chão, por aquela gente toda, que queria ver e chegar perto do presidente.
A meio da subida para o pelourinho, lá me consegui libertar e sair da torrente que seguia os visitantes. Tinha perdido as flores e encontrado duas amigas que tinham sido também arrastadas e vinham divertidíssimas.
Resolvemos aproveitar aquela pequena fatia de liberdade e ir ao café Montalto comer um bolo e beber um sumo. Juntámos o pouco dinheiro que tinhamos e fizemos um lanche maravilhoso, com aquela multidão a fazer de cortina e o som dos discursos inflamados como música de fundo.
Por fim, lá resolvemos voltar para o colégio. Calámos a nossa aventura e fizemos alarde da desventura de termos perdido as flores e não termos conseguido apresentar as homenagens programadas.
Qual o meu espanto, quando no domingo seguinte, na 1ª página do Jornal do Fundão, lá estava a fotografia do presidente, a sua comitiva toda e nas mãos de uma das pessoas, o meu ramo de flores...
Vezes sem conta, nestes anos todos, dou por mim a pensar como teriam ido parar às mãos daquela pessoa, as flores que perdera nos empurrões pela rua acima.
Ainda pensei na hipótese de 2 ramos exactamente iguais... o que era bem difícil.
O melhor de tudo foi o lanche no Montalto, às escondidas das freiras.

Tempos de partilha

Apesar de ter vindo da aldeia sem um tostão no bolso, com ideias novas e muito trabalho, acabou por ser uma das pessoas mais importantes do Fundão, pelo seu poder económico.
A sua origem humilde e o seu bom coração faziam com que ajudasse quem tinha sido menos bafejado pela sorte - continuo a acreditar que a sorte também tem muita importância na nossa vida - e a ele recorria para empregar um filho, para ser fiador num empréstimo, para emprestar mesmo uma quantia que resolveria um momento de aflição.
Era um grande empresário já, quando tomei consciência da amizade que o ligava ao meu pai e da forma como ajudava os outros.
Um dia, andando muito doente com uma úlcera varicosa numa perna, que o fazia sofrer horrores, atendeu no seu escritório uma mulher que lhe ia pedir ajuda, como era hábito.
A mulher era muito humilde e para tentar agradar ao senhor que tinha a solução para o seu problema, começou por lhe perguntar pela saúde. Ele lastimou-se do seu sofrimento. Ela, ainda a tentar agradar, disse-lhe:
-Mas tem tão bom aspecto.
Ao que ele respondeu -Pois é, mas eu não me queixo do aspecto!

29 numa cama

Na quinta, o meu pai tinha um trabalhador rural que o ajudava há muitos anos e era quem orientava os outros, na sua ausência.
Era natural de Valverde, a aldeia onde nasceu a minha avó, mãe da minha mãe.
Quando vinham novos trabalhadores ou visitas à quinta, ele brincava dizendo que na sua casa dormiam 29 na mesma cama. As pessoas olhavam-no com surpresa, sabiam que era brincadeira, mas tentavam descobrir o que ele queria dizer.
Nunca sorria e continuava a afirmar que era verdade o que dizia. Na sua casa dormiam 29 na mesma cama.
Quando as pessoas mostravam vontade de saber como é que aquilo era possível, ele explicava:
- Eu sou Catorze, o meu filho também é Catorze... já somos 28, mais a minha mulher, somos 29.
Era um homem à moda antiga, como dizem lá no campo. Não é que já não haja homens honestos, humildes e fiéis àqueles para quem trabalham, mas havia uma ligação afectiva tão forte, que os interesses fundiam-se, parecendo que o principal interessado que a vinha produzisse ou o pomar florescesse era também o encarregado e não só o patrão.
Era habitual, para mim, ver o meu pai conversar com o Sr Catorze, analisando as decisões a tomar, numa harmonia e cumplicidade que transpirava não só respeito mútuo, mas também amizade.
Sinto imensa vontade de procurar em Valverde por esta e outras famílias que povoaram os dias da minha infância e deixaram marcas de sentimentos fortes e únicos.

26/09/2007

Tudo começou aqui para mim e a minha geração!

Depois foi muito alucinante...

Elvis, Beatles, Rolling Stones...

Cabelos compridos, make love not war, S. Francisco e flores no cabelo... O tempo voou.

25/09/2007

carros...

As gincanas na avenida do Fundão, estão longe da minha memória. Sempre ouvi falar delas e só lembro vagamente o reboliço dessas alturas.

O pai participava e arranjava sempre par para fazer equipa.

A assistência tão murchinha... a criança, o polícia... tudo tem a ver com as provas desportivas em velocidade e as corridas na ponte Vasco da Gama altas horas da manhã, de agora!

O BL-12-12, era um espaaaanto!
As meninas de soquete branco e blusa chegadinha ao pescoço, manguinha de balão, joelho tapado, na maior decência, também se parecem com as adolescentes de agora, com roupas tão pequenas que mais parecem não ser delas, sugerindo muito e resguardando pouco, numa atitude de descontraída de provocação.
Acho que nem oito, nem oitenta...
Aqui, a geração seguinte.
Filho de peixe...
Os carros, sempre os carros, na vida do meu pai e do meu irmão Manel.
O autódromo do Estoril, pelos anos 70, os mini na berra.
Umas vezes o 4, outras o 44... tempos de sonhos e devaneios!

22/09/2007

Raízes

O Fundão é terra de boa gente, que também atrai
para o Fundão gente boa.

Há costumes que se mantêm e que são levados pelos Fundanenses para longe e recordados com carinho, anos e anos.
Quem nunca tomou café no Cine, leu o jornal na sua esplanada ou apenas conversou com amigos e viu passar as modas?
A sombra das tílias apazigua o calor do verão e torna sala de convívio esta avenida tão acolhedora.
Os jovens, mais familiarizados com as novas tecnologias, preferem a solidão do seu quarto para uma conversa na sala de chat.

Não conhecem com quem falam, não a podem tocar, nem ver ou ouvir as suas gargalhadas, na maioria dos casos. O cine proporcionou muito mais que isso toda a sua vida. Encontros, namoros, amizades, cavaqueira apenas. Mas tudo ao vivo e a cores... a fazer bater mais forte o coração!

.A Igreja... Baptizados, casórios e velórios, claro, juntam aqui as pessoas.
As amigas e as conhecidas...
No Natal, é o madeiro o anfitrião.
As canções ao Menino Jesus estão cada vez mais tímidas, mais esquecidas, mas no frio gélido das noites de Natal, o madeiro regala os olhos e junta os cristãos.
Os sinos são gritos de aviso que se ouvem ao longe. A Igreja é o coração do Fundão, o centro, a mãe.


O jardim e o casino. À direita, a casa dos Maias, hoje belíssima residência de Turismo.
Era aqui que todas as noites, no Verão, quando eu era criança, corria e saltava até ir para a cama.
No casino, nos bailes de Setembro, muito dancei...
Acho que o fiz pelo resto da vida, pois nunca mais tive como satisfazer essa minha paixão.
Lá ao fundo, está a Igreja e deste lado, a Câmara
Municipal.



O Parque das Tílias, tão conservador e diplomata- não fosse a propaganda política a estragar a sua harmonia fotogénica-lembra-me a minha mãe a fazer renda, acompanhada das amigas, nas tardes de calor.
Fala-se das doenças, dos médicos, das consultas, dos tratamentos.
.
E a tudo isto podemos acrescentar os biscoitos da Mª Joaquina, as filhós da Amélia, as papas de carolo da mãe, as pataniscas de bacalhau-as melhores da Terra- as cherovias fritas, os peixinhos da horta, o esparregado de vagens e o azeite... o azeite delicioso que faz o bolo da Páscoa e tempera as couves com batatas na consoada.
Não é só o queijo de ovelha, não são só as cerejas... São as tílias em flor, as oliveiras dobradas ao peso da azeitona, os bombos de Lavacolhos, o Rancho de Silvares, as castanhas do Souto da Casa, as trovoadas, as geadas, os turistas da Serra...
São as sirenes dos bombeiros e o céu nublado com as cinzas dos fogos.
Sãos os sabores, os odores, as preces e as dores. As raízes que me sustentam.