19/12/2008

O Presépio

Quando passámos a viver na quinta, o tempo mais esperado era o Verão e logo a seguir o Natal.
No Verão era a rua, o ar livre, a piscina, a bicicleta, o jardim, a azáfama da apanha da fruta, os dias grandes e as brincadeiras todos os dias reinventadas.
Mas mal vinham os primeiros dias de frio, começavamos a pensar no Natal.
O que mais me entusiasmava era fazer o presépio.
A procura das caixas onde tinham sido guardadas as figuras, a compra de figuras novas para enriquecer o cenário do estábulo onde colocaríamos a Sagrada Família, a escolha do lugar para ser montado, eram temas constantes das conversas com os meus irmãos e com a minha mãe.
Era feito, a maior parte dos anos, em cima da lareira da sala pequena, por estar perto de nós todos a maior parte do dia, já que era ali que tomávamos as refeições e a minha mãe passava o seu tempo a bordar ou a fazer renda.
Começavamos por desembrulhar os pequenos figurantes de barro- pastores, ovelhinhas, reis magos, anjos e muitos outros, que ano após anos iam enchendo as caixas dos sapatos, onde esperavam pelas luzes da ribalta.
Depois íamos ao Fundão comprar outras, que tinhamos visto nas montras das mercearias da Rua da Cale.
Pedíamos algodão em rama, papel de prata e um vidro, à mãe. Trazíamos a serradura e os pausinhos da oficina de marcenaria.
Colávamos os pausinhos até ter uma cerca para o rebanho e uma pequena ponte para o riacho.
Separávamos a Igreja, as casinhas e as pessoas que formavam a aldeia. Depois os pastores com as ovelhinhas às costas e algumas ovelhas para os seguirem. Os 3 Reis Magos nos seus camelos, a estrela para o cimo da cabana, a vaquinha e o burrinho eram os últimos a ser separados.
A caixa de sapatos, onde tinhamos metido com todo o cuidado a Mãe, o Pai e o Menino, era a última a abrir.
Para contruirmos a cabana e a manjedoura, pedíamos sempre ajuda. Encarrapitados numa cadeira, espreitávamos com todo o interesse o colocar de pequenos troncos por mãos mais experientes.
Papel amachucado era colocado a formar algumas montanhas, lá atrás, bem junto da parede da chaminé. O Presépio começava a tomar forma e nós não parávamos quietos, nem calados.
A etapa seguinte era a minha preferida. Com uma cesta da fruta, íamos percorrer a quinta até a enchermos de placas de musgo verde e fofo, para que o presépio ficasse mais bonito.
O frio deixava-nos de nariz encarnado e o peso do cesto fazía-nos dobrar as costas e arrastar os pés, mas nem assim deixávamos de andar depressa, de tagarelar, de rir, de gritar as palavras que o alvoroço nos sugeria.
Cada pedaço de musgo era colocado, com cuidado, a atapetar o chão da cabana, em seu redor e em cima do papel para formar as elevações. Um vale estreito era deixado para passar o riacho, que acabava num pequeno lago. Rematavam-se muito bem os limites do presépio, para que o musgo não caísse quando, com o calor da sala, ficasse mais seco e frágil.
Afastávamo-nos todos, para olhar de longe e ter noção mais exacta da cabana no canto e das montanhas atrás.
Para simular a água, as pratas dos chocolates. Ali em cima, o moinho. Ao centro, a ponte. Aqui ao lado, o lago com o vidro, para dar brilho.
A Igrejinha ali, não, todos gritávamos, lá, ali, ali, com as casinhas à volta. Mais além, o rebanho dentro da cerca.
Para delinear os caminhos, a serradura da madeira clara.
A estrela era presa por cima da cabana. O anjo, velava pelo estábulo.
Era a vez do Menino ser deitado nas palhinhas, com a Nossa Senhora à sua direita e o S. José à sua esquerda, olhando-O com ternura. Atrás o burrinho e a vaquinha respiravam junto do Menino, para o aquecerem com o seu bafo morno.
Cá fora, os pastores com as ovelhinhas ao ombro. De longe, os 3 Reis nos seus camelos, aproximavam-se vagarosamente. O algodão era então bem esfarrapado, para parecer neve. Uma lâmpada escondida atrás da cabana, iluminava o presépio de noite e de dia.
Agora, a ansiedade crescia na espera da noite da Consoada, em que estaria presente toda a família, da cozinha chegava o cheiro da canela no arroz doce e depois da Missa do Galo encontraríamos um presente no nosso sapato, deixado na lareira, junto do presépio.
No dia 6 de Janeiro, os Reis Magos chegavam ao estábulo e era hora do presépio ser de novo embrulhado e descansar mais um ano, nas caixas de sapatos.
Então, voltávamos para a escola a exibirmos a prenda que o Menino Jesus nos trouxera.

01/12/2008

Natal, Natal!

E chegou de novo o mês de Dezembro... O mês mais longo do ano!
Está frio, não apetece sair da cama de manhã. Não apetece andar na rua. Chove e é penoso entrar e sair do carro.
Só se ouve falar do Natal.
Árvores com 30 mts de altura e 60.000 lâmpadas. Montras com enfeites coloridos e brilhantes para chamar ao consumismo.
Prendas que se dão, porque é hábito dar.
Comida, roupas, enfeites, tudo, porque é Dezembro.
Quem se lembra do nascimento de Jesus?
Depois vem o fim do ano. Roupas bonitas para ir dançar e cear a um sítio in, a um hotel ou casino podre de chique.
E quem não tem dinheiro para prendas? Quem não tem emprego, casa, paz, saúde, liberdade, família ou apenas gosto por toda esta festança?
Dezembro é um Pai Natal obeso, vestido de cor ridícula, inventado para crianças ricas, para pais ricos, para países ricos. O Pai Natal é o simbolo do esbanjamento, do consumismo, do markting e da publicidade vencedora. É Dezembro das lojas e das prendas, não da família e do presépio.
São renas e trenós em vez de pastores e pequenas ovelhinhas de pelo anelado. São árvores de plástico, em vez de pequenos povoados feitos de musgo e serradura, são montes de prendas, em vez da Missa do Galo, são bolas e fitas, em vez de canções de Natal à consoada.

"Oh meu Menino Jesus,
Oh meu Menino tão belo
Logo tu foste nascer
Na noite do caramelo"

Mês de solidão, de saudade, de lembranças, de desejos e de duras realidades.
Mês vestido de encarnado, com laços dourados, luzes intermitentes, canções com guizos e coros de crianças a um "Menino em palhas deitado".
Quem me dera em Janeiro, livre de Almoços de Natal com os colegas, jantares de Natal com os patrões, escolha de prendas que não agradam a quem as dá, nem a quem as recebe, livre das trocas nas lojas, das montras atafulhadas de adereços de ouros e pratas, das árvores sem trambelho com estrelas no topo, dos troncos de chocolate mal amanhados, dos fritos areados, dos tubos iluminados e enroscados por tudo o que é sítio, das fitas franjadas e dos papéis com desenhos estrelados, dos laços de pontas encaracoladas, que nada atam.
Quem me dera já no sossego de Janeiro, em que ninguém tem dinheiro e por isso não enche as lojas, esperando horas em filas paradas, para pagar meia dúzia de bugigangas que não servem para nada. Dezembro é um mês fanfarrão que acaba com copos e farra, esquecendo quem não tem ordenado, nem subsídio de Natal.
E logo a seguir, outra estopada... O Carnaval.

Anita

A Amizade é um sentimento inteiro.
A Amizade verdadeira nunca esmorece, nem que passe por silêncios e ausências.
Não é interesseira, não é orgulhosa, não toma partidos diferentes consoante os humores.
Não se pede, não se vende, não se compra, não se avalia, não se pesa, não se mede.

Dá-se, dá-se, dá-se sempre, sem condições, sem obrigações, sem restrições.


A Amizade verdadeira tem nome- Anita